Do Nepal ao Brasil, antecipa��o � decisiva para a adapta��o clim�tica

Do Nepal ao Brasil, antecipa��o � decisiva para a adapta��o clim�tica

O massivo colapso glacial ocorrido na montanha Langtang Lirung, no Nepal, a 5,2 km acima do nível do mar, devido a temperaturas do solo anormalmente altas, é mais um trágico impacto da crise climática. Segundo o US Geological Survey, o derretimento acelerado fez com que um glaciar de 600 metros de largura se desprendesse, trazendo junto rochas, terra e outros materiais com um volume de 200 milhões de m3 numa queda de 1,2 km de altura. O impacto causou um tremor de magnitude 5,2, gerando um "flash flood" (enchente relâmpago), com uma onda gigante que chegou a 40 metros e explodiu pelos vales da região, adentrando o rio Trishuli, com pico de velocidade de 193 km/h e extensão de 72 km, obliterando vilas e infraestruturas. A tragédia causou ao menos 1.357 mortes e deixou 5.326 desaparecidos no Nepal, além de 43 mortes e 519 desaparecidos no vizinho Tibete, este administrado pela China. O desastre pegou os oficiais nepaleses de surpresa, já que não chovia. O que é marcante por dois motivos: 1 - devido à crise climática, não mais só monções (fortes chuvas periódicas), cada vez mais intensas, causam "flash floods" na região, mas também o calor; 2 - a falta de sistemas de antecipação com modelagem hidroclimática e monitoramento precisos para informar decisões públicas custa vidas. Tamanho desastre reforça a demanda por justiça climática: o Nepal é um dos países menos responsáveis pela crise do clima, enquanto tornou-se um dos mais vulneráveis a seus riscos. O que impõe criar reparações ao país e a outros em situação similar, com recursos e cooperação técnica para se adaptar à nova realidade climática, como fazem as nações ricas. Em 2025, em colapso glacial menor no Mont Blanc, a Suíça conseguiu evacuar a população em risco graças a sistema de modelagem e monitoramento. A deterioração do Acordo de Paris com o aumento das emissões nos últimos dez anos nos colocou em uma trajetória de fervura global de 2,8°C. Ou seja, em território desconhecido, onde dados históricos são cada vez mais obsoletos para predizer o clima —e isso no momento em que mais precisamos devido à intensificação dos eventos extremos. O Super El Niño de 2026-27, que se configura de tamanho recorde, deve potencializar ondas de calor e secas na Amazônia e no Nordeste, e enchentes e deslizamentos no Sul do país e na área litorânea da mata atlântica. Precisamos modelar com melhor precisão os riscos existentes para saber o que fazer em cada situação. No entanto, os modelos hidroclimáticos atuais apresentam três problemas: 1 - baseiam-se, em geral, em eventos passados, tornando-os cada vez mais defasados; 2 - apresentam margens de erro excessivas para projetar impactos em escala local devido à falta de integração com modelos locais mais precisos; e 3 - exigem maior precisão para modelar novos cenários globais atuais e futuros requer uma precisão muito maior nos modelos locais e regionais. Também é fundamental aumentar a nossa rede de monitoramento de eventos meteorológicos para alimentar tais modelos, habilitando decisões corretas no curto prazo. Soluções existem, com destaque para a tecnologia de modelagem 4D (3D e t-tempo, como a quarta dimensão), que funciona do satélite ao metro cúbico, integrando modelos globais avançados, modelos hidrológicos de ponta e modelagem paramétrica em gêmeos digitais (modelo virtual de um ambiente real usando parâmetros que podem ser alterados para simular diferentes situações). Esse formato apresenta melhor precisão nas escalas locais devido a entradas de dados mais detalhadas, aproximando quadrantes de análise de 10 km2 até 5 mm2, enquanto permite o uso de IA, especialmente "machine learning", na integração dos modelos citados e no teste de projetos de adaptação. Do Nepal e Suíça ao Brasil, para nos adaptarmos com resiliência precisamos fortalecer decisivamente nossa capacidade de antecipação com ferramentas do estado da arte (nível mais avançado de desenvolvimento) que informem sistemas de monitoramento e alerta, protocolos de segurança, intervenções de urbanismo climático e novos sistemas de governança como parte de políticas públicas de adaptação transformadoras, principalmente para os mais vulneráveis. Enquanto lutamos para realizar a transição energética e a regeneração, teremos de nos adaptar a eventos extremos cada vez mais intensos e frequentes. Disso depende nossa sobrevivência e prosperidade no novo clima. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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