D�lar abre em queda ap�s disparada com vit�ria de Lula; juros futuros recuam

D�lar abre em queda ap�s disparada com vit�ria de Lula; juros futuros recuam

O dólar abriu em queda nesta terça-feira (27), em um movimento de correção após a forte alta da véspera (26), quando a moeda americana registrou a maior valorização diária desde 1999, após a reeleição do presidente Lula (PT) para um quarto mandato. O movimento também se refletia nos juros futuros, que recuavam após a disparada de mais de 250 pontos-base na sessão anterior. Caso repita o comportamento observado na véspera, a Bolsa, que caiu 14%, poderá subir nesta terça, também em um movimento de correção. Por volta das 9h35, a moeda americana recuava 1,09%, a R$ 5,351. Os juros futuros também caíam em bloco. A taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 recuava 31 pontos-base, para 14,510%, enquanto a taxa para janeiro de 2031 caía 31 pontos-base, para 14,960%. Na véspera (26), o Ibovespa despencou e fechou o dia em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, menor patamar desde 17 de julho. A Bolsa brasileira acionou o mecanismo de circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, após a vitória do presidente Lula (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais frustrar as apostas de parte do mercado na vitória do candidato do PL. Na mínima do dia, o principal índice da Bolsa chegou a recuar 17,34%. O resultado eleitoral também provocou uma disparada do dólar e dos juros futuros, em meio ao aumento da aversão ao risco dos investidores. A moeda americana fechou em alta de 8,41%, cotada a R$ 5,409. Na máxima do dia, chegou a subir 12,37%, a R$ 5,604. Para Thomas Haugaard, gerente de portfólio da gestora de ativos Janus Henderson, a reação do mercado reflete a surpresa de analistas. "O resultado de domingo (25) foi surpreendente. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva reverteu o resultado do primeiro turno. Embora as pesquisas para o segundo turno indicassem uma disputa acirrada, os investidores precificavam uma vitória de Bolsonaro. O resultado, portanto, expôs uma clara assimetria: a aposta na vitória de Bolsonaro já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava." O movimento também se refletiu nos juros futuros. Às 17h06, a taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2027 subia 22 pontos-base, para 13,696%, enquanto a taxa para janeiro de 2031 avançava 254 pontos-base, para 15,190%. O risco-Brasil, indicador que mede a percepção dos investidores sobre o risco de investir no país, fechou em alta de 19,15%, após disparar 27% no início do pregão. A elevação sinaliza uma maior desconfiança em relação à capacidade do Brasil de honrar seus compromissos financeiros, o que pode encarecer a captação de recursos no exterior por empresas e pelo governo. A reação negativa reverte parte da valorização dos ativos brasileiros nas semanas anteriores à eleição, quando investidores apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro e na adoção de medidas mais rigorosas de ajuste fiscal em um eventual governo do senador. Entre a confirmação das candidaturas e a última sexta-feira (23), último pregão antes do segundo turno, a Bolsa brasileira acumulava alta de 15,3%, enquanto o dólar havia recuado cerca de 2% no período. Ao longo do ano, a Bolsa e o real também se beneficiaram do movimento de diversificação das carteiras globais, com investidores buscando alternativas aos ativos americanos. Nesta segunda, entre as poucas ações que encerraram o pregão em alta estavam as de empresas exportadoras, que recebem boa parte de suas receitas em dólar e podem se beneficiar da valorização da moeda americana. A maior alta foi da Suzano, cujas ações avançaram 10,08%. Já a Vale, uma das empresas de maior peso no Ibovespa, subiu 4,01%. Também registraram ganhos as ações da Embraer, WEG, Bradespar e Klabin. MUDANÇA DE RUMO A reeleição de Lula aumentou o receio de investidores de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista tende a elevar o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo, pressionando os juros futuros. Taxas mais altas, por sua vez, encarecem o crédito para empresas e consumidores e podem reduzir as perspectivas de lucro das companhias, afetando o desempenho da Bolsa. A preocupação com o cenário fiscal também apareceu nos relatórios de instituições financeiras. O J.P. Morgan rebaixou a recomendação para o real e os títulos públicos brasileiros de overweight (exposição acima da referência) para marketweight (exposição em linha com a referência) após a vitória de Lula. Em relatório, Vinicius Moreira e sua equipe afirmaram que o resultado, considerado inesperado pelo banco, deve provocar uma "reavaliação significativa" dos ativos brasileiros. Os analistas também citaram preocupações com a postura da oposição, após Flávio Bolsonaro não reconhecer a derrota, além das incertezas sobre a composição do novo governo e os rumos da política econômica. O BTG Pactual, por sua vez, afirmou esperar uma venda expressiva de ações brasileiras nas próximas semanas e projetou uma desvalorização de 10% a 15% do real. "Taxas de juros de longo prazo, uma moeda mais fraca e expectativas desancoradas podem levar o Banco Central a evitar um corte de juros mais agressivo no curto prazo", afirmaram os analistas do banco. Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a forte queda da Bolsa reflete o aumento da aversão ao risco após o resultado eleitoral. Segundo ela, o acionamento do circuit breaker busca conter a pressão vendedora e evitar uma sequência de desvalorizações. "Esse movimento defensivo dos agentes financeiros ocorre devido a um descompasso de expectativas do mercado em relação ao resultado das urnas, forçando os operadores a buscarem o dólar como refúgio enquanto aguardam sinalizações claras sobre as futuras diretrizes econômicas e fiscais do país", afirma. Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, também atribui a reação negativa dos investidores às preocupações com as contas públicas. "O mercado entende que o governo pode continuar com gastos altos, crédito subsidiado, políticas mais populistas e aumento da relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto). Então, os juros teriam trajetória de alta", afirma. Segundo ele, empresas com receitas em dólar tendem a enfrentar melhor esse cenário, enquanto companhias mais sensíveis aos juros, como as do varejo, podem ser mais prejudicadas. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. A reação dos ativos já era esperada por agentes do mercado. Levantamento do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado mostrou que 80% dos entrevistados esperavam que a vitória de Lula provocasse uma queda superior a 5% no Ibovespa nesta segunda-feira. Outros 7% projetavam recuo entre 1% e 5%, enquanto 3% esperavam valorização de 1% a 5%. No câmbio, 63% dos gestores esperavam uma desvalorização superior a 5% do real, enquanto outros 28% estimavam recuo entre 2% e 5%. Já 6% projetavam valorização superior a 5% da moeda brasileira. Para os analistas, contudo, a trajetória do dólar e da Bolsa no médio prazo dependerá das sinalizações sobre a política fiscal. "Pode haver um movimento muito forte no pós-eleição, mas sua consolidação vai depender das medidas do candidato eleito. A depender de como o vencedor conduzir a política fiscal, podemos ter uma reversão das expectativas iniciais", diz João Daronco, analista da Suno Research.

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