Disputa entre Lula e Fl�vio ocorre sob press�o fiscal e juros altos; veja propostas econ�micas dos candidatos

Disputa entre Lula e Fl�vio ocorre sob press�o fiscal e juros altos; veja propostas econ�micas dos candidatos

Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o próximo presidente da República enfrentará a partir de 2027 um cenário de contas públicas pressionadas, atividade econômica em desaceleração, juros ainda altos e endividamento em patamar recorde de empresas e consumidores. Entre os muitos desafios pela frente, a política fiscal é apontada como o principal por economistas, em um momento em que a dívida bruta do Brasil já chega a quase 83% do PIB (Produto Interno Bruto), o maior nível em cinco anos. Conter a dívida é a forma de garantir que a taxa básica de juros (Selic), hoje em 13,75% ao ano, continue caindo. Como mostrou a Folha, o próprio governo Lula aponta a necessidade de rever ao menos R$ 53,7 bilhões em gastos obrigatórios até 2030 para assegurar a continuidade das demais políticas públicas existentes no mesmo patamar atual, segundo projeções do PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) de 2027. Durante a campanha, a equipe de Flávio Bolsonaro falou em cortes de despesas equivalente a 1,5% do PIB e um novo teto de gastos, com base na relação dívida/PIB, mas não houve detalhamento de como se chegaria a esse resultado. Em abril, a Folha mostrou que o candidato considerava propostas de desvinculação de despesas com saúde do mínimo constitucional de 15% da receita corrente líquida, e o mesmo na educação, em relação aos atuais 18% da receita líquida de impostos. A equipe também estaria estudando desvincular a política de valorização do salário mínimo dos benefícios da Previdência. Com isso, aposentados e pensionistas teriam salário mensal reajustado apenas pela inflação, sem ganho real. Após repercussão negativa, o candidato veio a público para negar que essa mudança esteja sendo considerada. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisões Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, sugeriu a representantes da Faria Lima que haverá aperto nas regras fiscais e gatilhos do arcabouço fiscal para conter o avanço nas despesas obrigatórias. Em comício, o presidente chegou a dizer que era preciso "parar com essa babaquice de fazer superávit". A empresários, no entanto, Lula afirmou que manter as contas públicas sob controle é uma obrigação de qualquer governo. "Qualquer que seja o presidente vai ter que mexer na questão fiscal, que é a mais relevante", afirma Sergio Vale, economista da MB Associados e colunista da Folha. "É uma tarefa que não é fácil. Envolve negociar com o Congresso, mexer em gastos obrigatórios, em gastos tributários", aponta. Para o economista, o mercado pode ser condescendente com Flávio Bolsonaro, mas a cobrança virá em caso de vitória dele. "E o Lula também precisa fazer um ajuste de rota. A questão é qual a força política que terá num país dividido como o atual." Vale também avalia que o presidente Lula deve ter dificuldade em conseguir pautar o fim da escala 6x1 no Senado agora, com o futuro Congresso mais conservador. Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management e colunista da Folha, o resultado do primeiro turno surpreenderá o mercado, já que as pesquisas não indicavam a vantagem que o senador deve ter no segundo turno. Segundo ela, essa diferença em relação às projeções deve gerar reação forte do mercado nos próximos dias, e a possibilidade de Flávio vencer a eleição já é vista como favorável a uma maior probabilidade de contenção fiscal. "Na sexta-feira (2), as pesquisas estavam piores do que o que vai sair do primeiro turno. Então, eu acho que o mercado vai reagir bastante, porque qualquer um dos pontos percentuais numa eleição tão disputada de vantagem, saindo de vantagem no primeiro turno, é uma diferença grande." A economista afirmou que o mercado não espera um pacote de ajuste tão amplo quanto os adotados por Javier Milei na Argentina, já que, segundo ela, esses ajustes mais duros ocorreram em contextos de crises recessivas severas, cenário que não se repete no Brasil. "Tem espaço para uma queda de juros com um pacote fiscal que seja crível, mas acho que ninguém projeta um pacote super forte." Para José Luis Oreiro, economista e professor da UnB (Universidade de Brasília), o cenário é imprevisível. "Vão ser três semanas emocionantes e vai haver debate entre Flávio Bolsonaro e Lula, agora com igualdade de armas. Flávio Bolsonaro, como a gente sabe, é muito ruim de debate, e ainda acredito que o presidente Lula tem chance de ser reeleito", avalia. Adriana Dupita, economista para mercados emergentes da Bloomberg Economics, lembra que o espaço para que Flávio Bolsonaro corte gastos é exíguo, já que mais de 90% das despesas federais são obrigatórias. "Um corte nas discricionárias para seu menor nível nos últimos 17 anos traria uma melhora fiscal de cerca de 0,3% do PIB. É pouco perto do ajuste fiscal necessário, de 2% a 3% do PIB, para estabilizar a dívida pública", aponta. Na avaliação de Gustavo Bertotti, diretor de renda variável da Fami Capital, será primordial ver propostas críveis no âmbito fiscal no segundo turno. "Independentemente de quem assumir o país, nós vamos ter 2027 e 2028 muito complicados em termos de fiscal. Eu acho que [os presidenciáveis] vão falar muito mais em construção de equipe econômica, quem que vai assumir possivelmente algum cargo." ECONOMIA PERDE FÔLEGO Além do ajuste necessário nas contas públicas, o novo governo irá encarar a perda de fôlego da economia brasileira. Semana a semana, o Boletim Focus vem mostrando projeções menores para o PIB deste ano e do próximo —a estimativa atual é de alta de 1,86% em 2026 e de 1,41%, respectivamente. A expectativa dos principais bancos é que o avanço do consumo, que cresceu em média 3,3% nos últimos cinco anos, desacelere para em torno de 1% neste ano e no ano que vem. Essa marcha lenta do consumo já vem acontecendo. No segundo trimestre, o consumo das famílias medido pelo IBGE recuou 0,4% ante os primeiros três meses do ano. O cenário é decorrente dos juros altos e do endividamento elevado da população. "O Brasil que vai ser governado a partir de janeiro de 2027 vai ser um país com um setor privado extremamente alavancado. Estou falando de firmas e famílias, que estão com muita dívida e em processo de desalavancagem", diz Oreiro. Segundo a Serasa, hoje há 83,9 milhões de inadimplentes no Brasil. A inadimplência das famílias no crédito livre, em que as condições são livremente pactuadas entre bancos e clientes, atingiu um novo recorde em agosto, de 8%, segundo o Banco Central. Esse nível do endividamento das famílias pode ter um efeito rebote sobre o consumo no ano que vem, segundo economistas do BTG Pactual e do FGV Ibre. O cenário, dizem eles, é considerado particularmente arriscado porque muitos brasileiros estão endividados em linhas de crédito caras, o que tende a intensificar a ressaca que costuma se seguir a períodos de expansão acelerada do crédito como o atual. Como solução, o governo Lula defende aprimorar regras de oferta e responsabilidade na concessão de crédito para acompanhar o endividamento das famílias e das empresas. Para combater o endividamento, o programa de governo de Flávio cita como solução a criação do programa "Ganha, Ganha", no qual o pagamento de contas em dia e a conclusão de cursos geram pontuação positiva para acesso a juros menores. RECUPERAÇÕES JUDICIAIS E DESACELERAÇÃO DO CRÉDITO As empresas também enfrentam dificuldades em um cenário de juros altos e crédito restrito, e vêm recorrendo a recuperações judiciais e extrajudiciais para suspender a cobrança de dívidas, ganhar tempo para renegociá-las e manter as operações. O número de empresas em recuperação judicial saltou 65,8% entre o segundo trimestre de 2023 e o segundo trimestre deste ano, segundo dados da consultoria RGF. O número, que foi de 3.823 para 6.341 nesse intervalo, foi puxado pelo agronegócio, transporte e logística e varejo. No mercado de trabalho, o cenário é diferente do que se viu em 2022: desemprego em mínimas históricas e recordes de ocupação, empregos com carteira assinada e rendimento salarial. A expectativa de economistas é que a taxa de desocupação crescerá no ano que vem, mas ainda se manterá em um patamar historicamente baixo. Mesmo assim, há desafios para o presidente a ser eleito, como informalidade ainda perto de 40% da mão de obra, expansão do trabalho por aplicativos (uberização), pejotização, efeitos da inteligência artificial sobre vagas de entrada, corrosão da Previdência com longevidade acelerada e descompasso entre formação e o que o mercado necessita.

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