Disputa entre Fl�vio e Lula ganha ares de guerra espiritual com boato sobre Nossa Senhora Aparecida

Disputa entre Fl�vio e Lula ganha ares de guerra espiritual com boato sobre Nossa Senhora Aparecida

Flávio Bolsonaro (PL), se vencer a disputa presidencial contra Lula (PT), vai remover Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil? Não há qualquer indício sólido de que algo parecido esteja no plano do presidenciável do PL. Ainda assim, a boataria se espalhou feito rastro de pólvora na campanha eleitoral, ligando o alerta entre bolsonaristas e dando ares de guerra espiritual ao pleito de 2026. Flávio entrou no modo contenção de danos já na quinta (24), diante da dimensão que vem ganhando o que classificou como "uma grande mentira" sem "pé nem cabeça". Voltou ao tema nesta sexta (25), para dizer que defende o direito de "pessoas de qualquer fé" de "exercer sua crença livremente". Frisou que um gesto desses nem sequer caberia ao presidente e tentou empurrar a batata quente religiosa para o adversário. "Quem desrespeita a fé e o cristianismo é o Lula e a esquerda." Nos bastidores, aliados temem impacto similar ao de uma fake news que atropelou a campanha de Fernando Haddad em 2018: o petista distribuiria mamadeiras com bico em formato de pênis em creches públicas para combater a homofobia. Uma declaração do próprio Flávio deu fôlego à tese de que ele atacaria o status de padroeira que Nossa Senhora Aparecida detém desde 1931—e, de quebra, acabe com o feriado da data. Em agosto, o primogênito de Jair Bolsonaro (PL) justificou sua ausência no debate da Band dizendo que gostaria de confrontar "quem não acredita em Deus", repercutindo outra fake news, a de que Lula, que também faltou no dia, seria um descrente. Na sequência, disse a frase que se volta contra ele agora, na reta final da campanha: se virar presidente, um dos seus primeiros atos será "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A fala foi interpretada como um "apito de cachorro": uma mensagem cifrada direcionada ao eleitorado evangélico, sinalizando uma suposta prioridade religiosa que acabou servindo de combustível para a distorção sobre a padroeira. Acontece que evangélicos não acreditam em santos e, portanto, não veneram Maria, a mãe de Jesus, como tal. Um projeto de lei apresentado em 2007 por um pastor, o então deputado Victorio Galli, ajudou a fomentar o rumor de que Flávio, que se declara evangélico, apoiaria derrubar Aparecida como padroeira nacional. O PL foi arquivado em 2008 e, 11 anos depois, Galli virou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro. Aliados evangélicos de Flávio correm para evitar que a atual crise vire uma espécie de novo "chute na santa". A referência é a 12 de outubro de 1995, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus deu pontapés numa estátua da padroeira brasileira, que chamou de "um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado". Jornais de todo o país registraram o arroubo, que gerou desgaste para a Universal e evangélicos como um todo. Em 2018, o pai de Flávio havia sido alvo da mesma munição religiosa, ainda que sem a tração de agora. Na época, circulou que Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro assinaram o PL que sugeria a alteração do termo "padroeira do Brasil" para "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos" —Galli é o único proponente que consta no texto, e Eduardo, por sinal, nem era deputado ainda. No mesmo ano, Jair também foi alvejado com a notícia falsa de que mudaria o tom de pele da imagem de Aparecida, de negra para branca. O deputado e pastor Marco Feliciano (PL-SP) diz que a onda atual configura "a maior fake news religiosa da história, tudo preconceito por Flávio ter se declarado evangélico". O pastor Silas Malafaia fala em "conversa fiada" de "esquerdopatas desesperados". Para Rodrigo Toniol, antropólogo da UFRJ que pesquisa o catolicismo, os ataques contra Flávio são "tão fake news quanto dizer que o Lula vai fechar igrejas". Nada de novo no front, afirma. "A questão aqui é a mobilização da pauta religiosa na chave do medo para criar o constrangimento, para disputa política mesmo." O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), cuja fé católica é ativo político há décadas, botou lenha nessa fogueira eleitoral. Em vídeo, contou que tem recebido "mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e com as notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem". Que se aquietem, recomendou. "Enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para nossas famílias, estarão protegidas e preservadas." A primeira-dama Janja foi outra a explorar o burburinho eleitoral da vez: postou uma foto do marido segurando uma imagem de Aparecida. "Olhai por nós", assim a legendou. O deputado André Janones (Rede-MG) também postou material nesse sentido, em tom mais alarmista. Diz que o PT, "fundado ali dentro da Igreja Católica", foi essencial para arquivar o PL de 2007 que tentou destronar Aparecida como padroeira —a criação do partido de fato contou com a simpatia de líderes católicos como dom Paulo Evaristo Arns e frei Betto, mas sem qualquer endosso formal do Vaticano. Janones também afirmou, sem mostrar evidências, que Flávio quer desarquivar o projeto de lei para agradar Sergio Von Helder, o ex-bispo da Universal que chutou a imagem de Aparecida nos anos 1990. Em 2018, o antigo quadro da Universal respaldou a candidatura de Bolsonaro, mas não se sabe de vínculos estreitos entre ele e a família. Essa suposta rixa latente entre católicos e evangélicos é uma tensão que já arde dentro do próprio bolsonarismo. Setores mais extremistas miram a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), irritados com manifestações de prelados em defesa da democracia, do voto consciente e da soberania nacional na eleição. Para a militância bolsonarista, essas posições refletem um claro viés pró-Lula, tese reforçada pela repercussão de uma gravação de abril, em que bispos católicos entoam o hino antifascista "Bella Cio". A socióloga Tabata Tesser, do Instituto de Estudos da Religião, aponta "uma intensificação da defesa das instituições democráticas por parte de setores importantes da Igreja Católica". Isso não significa necessariamente uma adesão a Lula, "mas pode produzir um efeito colateral importante entre católicos e uma maior resistência a candidaturas identificadas com ataques às instituições", afirma. A predileção de católicos por Lula, e evangélicos por Flávio, é uma constante nas pesquisas eleitorais. No mais recente Datafolha, adeptos do catolicismo dão ao petista 45% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% para seu rival. Já entre crentes a vantagem se inverte: Flávio tem 47%, e o presidente, 27%. O instituto ouviu 2.002 eleitores em 125 municípios nos dias 22 e 23 de setembro.

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