As motos chegam antes do candidato. Depois vem outra, e mais outra, até o ronco dos escapamentos dominar o som ambiente no Conjunto Ceará, periferia de Fortaleza. É terça-feira (15) e a praça está cheia para o ato convocado nas redes sociais pelo deputado federal André Fernandes (PL). Quem enche a praça é gente jovem, e cada música pede um passinho. As canções do "Bloco do 22" são feitas para dançar e filmar, sob medida para as redes sociais. Os adolescentes usam óculos do tipo juliette e buscam melhor ângulo. No mesmo dia, o ex-governador Camilo Santana (PT), que não é candidato, lidera um encontro com prefeitos, vice-prefeitos e vereadores em Canindé (120 km de Fortaleza). Mobiliza os aliados para as últimas semanas da campanha, de lá, segue para uma procissão em Juazeiro do Norte. Enquanto as militâncias estavam nas ruas, o governador Elmano de Freitas (PT) e o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) enfrentavam mais um debate tenso na TV Jangadeiro, afiliada do SBT. A campanha eleitoral no Ceará chega à sua reta final com palanques pulverizados, disputas judiciais e uma estratégia de 'terra ocupada' dos candidatos. Aliados até 2022, Ciro e Elmano trocaram acusações mútuas ao longo da campanha e chegaram a discutir com os dedos em riste em um debate. As pesquisas indicam uma disputa acirrada: Ciro Gomes tem 47% das intenções de voto ante 40% de Elmano, segundo o Datafolha divulgado na sexta-feira (18). Depois de disputar quatro eleições presidenciais, Ciro busca se reerguer a partir do seu berço político. Voltou ao PSDB depois de três décadas e disputa a eleição aliado a partidos de direita como União Brasil, PP e PL, mantendo a neutralidade na disputa presidencial. Na terça-feira, quando Flávio Bolsonaro (PL) foi a Fortaleza para fazer campanha ao lado de André Fernandes, Ciro passou longe do palanque do partido aliado e disse que todos os presidenciáveis são bem-vindos no Ceará. "Nós estamos numa democracia. Esse estado aqui é libertário, gosta de receber todo mundo, as pessoas têm que respeitar", afirmou. Mas a neutralidade está longe de representar uma relação distante com os aliados do PL no estado. Na última semana, Ciro apelou aos eleitores para que fizessem de André Fernandes o deputado federal mais votado da história do Ceará, batendo seu próprio recorde, de 2006, quando teve 667 mil votos. Também pediu votos para Alcides Fernandes (PL), pai de André, e candidato ao Senado. Costuma afirmar que tem ao seu lado "bolsonaristas honrados" e lembra que outros aliados seus apoiam Lula, caso do seu irmão Ivo Gomes (PSB) e do deputado Mauro Filho (PDT). O apoio é recíproco. O PL faz campanha de forma independente, mas não deixa de pedir votos para Ciro. Fenômeno nas redes sociais, André Fernandes funciona como elo com a juventude –Ciro chega a 54% ante 30% de Elmano entre os eleitores de 16 a 24 anos, segundo o Datafolha. No Conjunto Ceará, um dos bairros mais populosos da periferia de Fortaleza, adolescentes choravam ao ver o deputado, que liderou um comício com ares de micareta embalado por jingles contra o PT. A crise na segurança pública também é um tema onipresente. O tucano ancorou sua campanha no lema de "salvar o Ceará" das facções criminosas e tem feito críticas duras ao governador, a quem chama de frouxo no combate ao crime organizado. Elmano de Freitas não deixa as críticas sem resposta e cita que as facções começaram a ganhar terreno no Ceará no início dos anos 1990, quando o estado foi governado por Ciro. No campo político, o petista aposta em propagandas que vinculam Ciro Gomes a Jair Bolsonaro, usando a expressão "Cironaro". O tucano buscou barrar a peça na Justiça, em mais um episódio da intensa batalha judicial que marcou a campanha. Elmano diz estar decepcionado com o agora adversário: "Mas uma vez, ele aparece abraçado com o bolsonarismo. Evidentemente, isso gera uma decepção. Não por causa desta eleição especificamente, mas porque ele mudou de lado na política", afirmou o governador à Folha. O petista também adotou uma estratégia de atos de campanha pulverizados. Enquanto o governador tem se dedicado a debates, caminhadas e carreatas, a candidata a vice Gabriella Aguiar (PSD) faz atos com mulheres e o ex-governador Camilo Santana foca na articulação política. Com maior capilaridade no interior, o petista busca recuperar terreno na Grande Fortaleza. Na sexta-feira (18), começou o dia com uma caminhada na Comunidade Renascer, no Mondubim, periferia da capital. Ao lado do prefeito Evandro Leitão (PT), caminhou entre vielas, batendo de porta em porta e entrando na casa de quem o convidava. Nas calçadas, o aguardam sobretudo mulheres, principalmente as idosas –Elmano lidera entre os eleitores com mais de 60 anos, segundo o Datafolha. Na entrada da comunidade, ônibus chegavam com dezenas de apoiadores, incluindo cabos-eleitorais que receberam entre R$ 50 e R$ 100 para segurar bandeiras durante o ato de campanha. À noite, uma carreata seguiu pelas ruas do Aracapé, Conjunto Esperança, Parque Santa Rosa e Parque Presidente Vargas. Um forró estilizado estrilava nas caixas de som dos paredões e atraía um público jovem, que circulava em meio à fumaça vermelha dos sinalizadores. Um jingle falava que "Elmano é Lula". Demonstrando otimismo, o governador disse acreditar em vitória do PT nas eleições, derrotando o bolsonarismo e também Ciro Gomes, seu antigo aliado e agora ferrenho adversário: "Temos que fazer um esforço grande, com muita humildade. Vamos para a rua trabalhar voto a voto".
Disputa entre Ciro e Elmano tem polariza��o, ataques e palanques m�ltiplos no Cear�
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