Em 1991, a Zâmbia elegeu como presidente um líder sindical. Ao tomar posse, Frederick Chiluba dedicou seu país ao "senhorio de Jesus Cristo". Começou seu governo com um time de ministros pentecostais limpando o palácio de maus espíritos. Em 2026, Flávio Bolsonaro (PL) sinalizou seguir caminho parecido quando prometeu, dando de barato que vencerá a eleição, que um dos seus primeiros atos será "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". O governo de Chiluba não perseguiu religiões minoritárias de forma sistemática ou violenta. Mas foi muito criticado pela reverência aos pares de fé. O favoritismo gerou debates teológicos e políticos densos, pelo receio de que não cristãos fossem relegados a cidadãos de segunda classe, mesmo sem coerção física. E se Flávio vencer o pleito contra Lula (PT) e cumprir o prometido, o que isso significa na prática? Primeiro, é preciso entender por que essa fala de agosto do primogênito de Jair causou tanta celeuma entre católicos, recuperada em meio à polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Talvez apontasse um incauto secular: não são todos seguidores de Jesus Cristo, evangélicos e católicos? Acontece que a fórmula de decretar alguma coisa para Cristo tem forte apelo pentecostal. Pedi para minha amiga Deborah Bizarria, colunista de economia da Folha e presbiteriana, me ajudar a explicar essa. Funciona assim: usar essa construção é uma forma de materializar algo que já teria sido decidido no mundo espiritual. Em vez de pedir, por exemplo, para que Deus o cure de uma doença, o fiel vai pela linha "decreto a cura sobre o meu corpo agora". Muita gente, católica ou não, viu na declaração de Flávio um apito de cachorro. Essa expressão serve para mensagens que, à primeira vista, parecem não querer dizer nada demais, mas têm um significado oculto —como se fosse uma piscadinha ou um código secreto que só poucos entendem. Tal qual o apito que emite um som tão agudo que ouvidos humanos não captam, mas cães escutam perfeitamente. Flávio se defendeu dizendo que sua frase é "apenas uma forma figurada de ressaltar a importância da paz, da proteção e da esperança". Se foi tão inocente assim, ou carregada de segundas intenções, não dá para dizer com certeza. Tampouco dá para concluir que o candidato do PL tem uma agenda secreta para minar símbolos do catolicismo, como resgatar um projeto de lei, morimbundo há quase duas décadas, que propõe rebaixar Aparecida a padroeira apenas de católicos apostólicos romanos, e não de todos os brasileiros. A não ser que alguém apareça com provas no sentido contrário, o nome disso é fake news, e não adianta dizer "eles começaram primeiro!", como se uma mentira passasse a ser verdade só porque houve uso desbragado da direita bolsonarista de desinformação religiosa contra a esquerda —a de que o PT vai fechar igrejas se repete desde 1989 e foi reabastecida pelo isolamento social na pandemia que obrigou templos, assim como quase tudo o que é estabelecimento, a parar por um tempo. A hostilidade de alguns setores evangélicos por Aparecida é inegável. O próprio bispo da igreja na qual Flávio se batizou em 2024, JB Carvalho, falou mal da santinha católica. Ainda assim, é prematuro afirmar que Flávio, acima de qualquer dúvida, daria um institucional chute na santa após vestir a faixa presidencial. Fora que seria um tiro político no pé num país que bem ou mal ainda é predominantemente católico (religião declarada pelo pai dele, por sinal). O que dá para cravar, e o pastor batista Kenner Terra faz exatamente isso, é que a fala de Flávio tensiona a ideia de Estado laico, "na medida em que apresenta a visão de mundo de um grupo religioso como referência para a identidade do país".Há, de quebra, um efeito colateral preocupante: o terreno fértil que isso abre para uma polarização entre católicos e evangélicos. Com incômoda frequência, o debate público cola a tal Teologia do Domínio em todo e qualquer crente, como se fosse uma regra geral. Esquece-se que se trata de uma vertente específica, dotada de agenda e teologia particulares, e não de um denominador comum que define a massa evangélica. Acusado de corrupção após deixar o cargo, o zambiano Chiluba disse a um jornal local: "Sofri depois de deixar a Presidência, mas não como Jesus sofreu. Sofri apenas um quarto disso". Quando o Tribunal Superior Eleitoral votou pela inelegibilidade de Jair, Eduardo Bolsonaro comparou o pai a Cristo: "Não esqueçam daquele que venceu o mundo numa cruz e suas ideias persistem até hoje". A declaração de Flávio pode dizer muitas coisas, e nenhuma delas soa por acaso numa cruzada política que decide tirar pra Cristo crenças e símbolos para fins de conveniência eleitoral. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Disputa eleitoral tira pra Cristo a f� do brasileiro
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