Direita latino-americana segue plano temer�rio de Trump

Direita latino-americana segue plano temer�rio de Trump

Se o Itamaraty foi apanhado de surpresa pela decisão de 14 países da América Latina de acompanhar os Estados Unidos na classificação do PCC e de outras quadrilhas como organizações terroristas, chama a atenção menos o conteúdo da declaração —às margens da Assembleia Geral da ONU— e mais o isolamento diplomático do Brasil. Não é trivial articular uma negociação entre tantas nações sem que informações vazem para outras partes interessadas. Entre os participantes do Escudo das Américas, a iniciativa envolvendo governantes latino-americanos simpáticos a Donald Trump, há vizinhos do Brasil, como Argentina, Colômbia e Bolívia. Seus corpos diplomáticos não são estranhos ao Itamaraty. Teoricamente faz pouco sentido classificar grupos criminosos como terroristas. Ainda que possam recorrer a táticas de terror —instilando, por exemplo, o pânico entre civis—, o que os move é o ganho econômico, não objetivos político-ideológicos. Na prática, o que mais interessa é a efetividade do combate a esses grupos. Há que monitorar a mudança de nomenclatura para verificar se ajudará ou prejudicará as cooperações internacionais. Nos EUA, o combate a organizações transnacionais cabe ao FBI e outras agências com expertise policial. Já o enfrentamento de terroristas é dividido entre órgãos policiais e de inteligência, como a CIA, e departamentos militares, que resistem muito mais em compartilhar dados com outros países. O governo Trump, porém, não se pauta por políticas eficientes em quaisquer áreas em que atue. O que o caracteriza é a retórica hiperbólica, não necessariamente vinculada às evidências. É pena que tantos dirigentes latino-americanos tenham dado prioridade a agradar ao republicano. A reclassificação oferece pretextos jurídicos para os Estados Unidos e outros países atuarem com mão pesada contra suspeitos de integrar essas quadrilhas. No limite extremo, facilita até a justificativa para ação militar. São oportunidades de agir de modo arbitrário, o que é sempre algo a evitar no Estado democrático de Direito. Cumpre observar, ademais, que Donald Trump está longe de ser um legalista. Várias intervenções externas já ordenadas por ele estão em desacordo com a lei internacional, o que não foi suficiente para inibi-lo. Seria por outro lado ingênuo ignorar o interesse eleitoreiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em manter um certo nível de atrito com Trump. O republicano, nas suas ofensivas disparatadas contra a população e as empresas do Brasil, tem se portado como cabo eleitoral de luxo do candidato petista à reeleição. Para o cidadão brasileiro, não importa o nome que as quadrilhas tenham. O que interessa é o combate à chaga do crime organizado ser resolutivo. Se nações ricas querem financiar o esforço local, a atitude de governos pragmáticos deveria ser a de ao menos explicitar o que se perde em recursos ao recusar o apoio. editoriais@grupofolha.com.br

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