Quantas vezes você já tentou expor um incômodo ou fazer uma pergunta sobre algo que seu marido ou namorado fez e se percebeu, horas depois, inundada de angústia, impotência e dúvida? Dúvida da pergunta que ficou sem resposta e da legitimidade do próprio incômodo. Afinal, ao questionar por que ele não apareceu na reunião da escola do filho de vocês nem atendeu o celular, você ouviu: "Você sabe o dia que eu tive hoje? O quanto eu me esfolo para pagar a escola que você fez questão?!"; "A mãe do ano não pergunta, só cobra, né? Todo pré-adolescente tem problema. Para que reunião?"; "Se você não fosse tão paranoica com ele e comigo, teriam menos reuniões". Desviar, ironizar e inverter a culpa. Quando se repetem, esses movimentos se tornam mecanismos de gaslighting e de violência psicológica, tão constantes que acabam normalizados no campo privado. Flagrados como estratégia agressiva no debate entre os candidatos à Presidência no último domingo (18), tornaram-se gatilho para muitas mulheres que, diante da TV, sentiram no corpo um aperto antigo e conhecido sem bem entender por quê. Relatos de angústia, taquicardia e nó na garganta chegaram à minha clínica e às redes como efeitos do mal-estar diante da falta de respeito a quem queria ouvir propostas e ter suas perguntas respondidas. O escritor português José Saramago diz que "é necessário sair da ilha para ver a ilha", e o debate da Band ofereceu a muitas mulheres essa distância. Assistiram de fora a um candidato que, diante das perguntas, recorria ao desvio, ao deboche, ao empilhamento de justificativas e à inversão da culpa para arrancar aplausos e escapar do embate direto. Ali, reconheceram a gramática da própria casa. Nomear é o primeiro passo para desnaturalizar essa conduta: destrinchar o que nos nauseou no debate ajuda a avaliar o candidato e a reavaliar nossos companheiros. Em "A interpretação dos sonhos", Freud apresenta a lógica da chaleira: acusado de devolver furada a chaleira emprestada, o homem responde que a devolveu intacta, que ela já estava furada e que nunca a pegou. Juntos, os argumentos se anulam, mas o excesso confunde e desvia do fato. Nos casais, vejo este desvio na "livre associação de mágoas e provas": ela se queixa da ausência na reunião, ele rebate com o atraso dela no Natal de 2023 e com a vez em que foi sozinho e com febre ao futebol do filho em 2017. Fatos sem relação, articulados por quem confunde para não perder a razão, até que quem ouve se perca. Quem desvia não foge apenas do assunto, mas do lugar onde foi colocado. Ao responder atacando, o homem se esquiva da responsabilidade e põe a interlocutora no banco dos réus. Lugar que tantas de nós aceitamos, justificando a desrespeito do outro por nosso suposto excesso de sentimentos. Há ainda uma inversão sutil e perversa: quando a discussão sai do que ele fez e passa para o tom com que você reclamou. A forma engole o conteúdo, e quem tinha uma queixa vira acusada de chilique, loucura, TPM. Tudo isso compõe o gaslighting. O termo vem da peça "Gas Light", em que o marido diminui a luz dos lampiões e jura à mulher, angustiada com a dificuldade de enxergar, que nada mudou. O movimento é gradual: primeiro você duvida do fato, depois da memória, por fim da própria percepção. Ao passar a se julgar crítica demais, demandante e paranoica, já antecipa o deboche e se autocensura. O deboche foi, para mim, uma das posturas mais odiosas do debate. Em "Os chistes e sua relação com o inconsciente", Freud mostra que o chiste hostil precisa de três: quem faz, quem é alvo e o terceiro que ri. A piada recruta aliados, na plateia do debate, na mesa da pizza com os amigos ou no sofá com os filhos, e o riso autoriza uma agressividade que, sem palco, seria claramente agressão. Se você reclama, há o álibi: "era brincadeira". A ideia de que a mulher é irracional e precisa ser contida ganhou plataforma, monetização e, cada vez mais, vocabulário político. Os canais misóginos mapeados pelo NetLab da UFRJ ganharam 3,6 milhões de seguidores este ano. Quando o discurso público, inclusive o de candidatos que tomam a agressividade masculina por caráter, trata a mulher como alguém que não sabe pensar, entrega matéria-prima para quem, em casa, quer convencê-la de que ela não sabe o que diz. E ela passa a ler a violência como prova de que talvez esteja mesmo exagerando. Não se trata de brincadeira dele ou sensibilidade sua. O nome é violência psicológica contra a mulher, tipificada no artigo 147-B do Código Penal desde 2021. A lei nomeia humilhação, manipulação, isolamento e ridicularização como formas de dano. As mulheres do meu consultório e das redes não votam igual, mas compartilham a angústia de serem desqualificadas e descredibilizadas. Fomos testemunhas, aos milhões, de um jogo perverso de manipulação. Que esse olhar de fora nos ajude a ver o horror dentro das nossas ilhas conjugais e a não afundar em nome de um amor que cala, se esquiva e não se responsabiliza. E, se você é o homem que recorre quase automaticamente a esse contra-ataque porque aprendeu assim, desaprendamos juntos: responder às perguntas difíceis antes de acusar, assumir os próprios erros, validar o incômodo do outro. Amor também é política. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Desviar, ironizar, inverter a culpa; o que o debate revela sobre as brigas conjugais
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.