Despreparo policial mata

Despreparo policial mata

Em menos de duas semanas, três pessoas foram mortas por policiais militares em São Paulo durante abordagens com indícios de imperícia. No dia 3 de outubro, Antonio Nunes Batista, 40, que tinha esquizofrenia segundo a família e portava uma faca de acordo com a polícia, foi alvejado com 24 tiros, após os agentes usarem uma arma de choque. No dia 10, PMs dispararam 45 vezes em menos de cinco segundos e atingiram com 27 tiros Gustavo Munis de Santana, 20, que tratava depressão e avançou em direção a eles com um celular, numa postura similar à de alguém segurando uma arma. Cinco dias depois, Camila Pereira da Silva, que portava uma faca, foi morta com um tiro por um PM; as imagens não mostram tentativa de uso de armas não letais. Os policiais demonstraram despreparo para lidar com situações-limite e pessoas em possível surto psicológico. Nos dois primeiros casos, o número de tiros evidencia grave desproporção. Sobre a morte de Gustavo, o secretário-executivo da Secretaria da Segurança Pública, coronel Henguel Ricardo Pereira, disse que "do ponto de vista técnico, o policial atirou achando que estava se defendendo". Sob o mesmo ponto de vista, a quantidade abusiva de tiros exige investigação. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a taxa de letalidade policial do estado em 2025 foi de 1,8 mortes por 100 mil habitantes, abaixo da média nacional (3,1) e longe dos primeiros colocados do ranking: Amapá (17,1), Bahia (10,6) e Sergipe (8,4). Mas, durante o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), houve aumento no número de mortes, que passou de 421 em 2022 —quando a taxa era de 0,9— para 835 no ano passado. O Método Giraldi, adotado pela PM paulista, prevê o uso escalonado da força, para a "preservação da vida", e a força letal como "última alternativa". Privilegia-se o disparo de poucos tiros para imobilizar a pessoa, não matá-la, a partir de critérios como necessidade e proporcionalidade. As diretrizes seguem princípios da ONU, que só admitem o uso letal quando inevitável; no Brasil, a lei 13.060 de 2014 manda priorizar instrumentos de menor potencial ofensivo. Os casos recentes extrapolam essas orientações: vídeos mostram Antonio e Gustavo sendo baleados já caídos. Assim, policiais devem ser treinados para identificar crises de saúde mental, avaliar o risco real e priorizar a redução da tensão, dispositivos não letais e o acionamento de atendimento especializado, como o Samu. Não foi, infelizmente, o que se viu. editoriais@grupofolha.com.br

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