Desenhos raros de Tarsila do Amaral v�m a p�blico em mostra no interior paulista

Desenhos raros de Tarsila do Amaral v�m a p�blico em mostra no interior paulista

São desenhos que ficaram por décadas trancados numa gaveta no Rio de Janeiro, guardados com tanto zelo pelo dono que nem mesmo a sua mulher podia vê-los. Até que, depois da morte do marido, ela vendeu a coleção de 204 folhas, pequenas relíquias com ilustrações de Tarsila do Amaral feitas a lápis, giz de cera e nanquim. Quem comprou a coleção —exibida anteriormente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1969— foi Marcos Amaro, o fundador do museu Fama, a Fábrica de Arte Marcos Amaro, em Itu, no interior paulista. Amaro havia programado uma mostra dos desenhos para março de 2020, mas a pandemia interrompeu os planos. A exposição finalmente aconteceu em novembro daquele ano, visitada por poucos devido ao coronavírus. Agora, um recorte de cerca de 45 ilustrações da coleção é exibido no museu Fama. "Tarsila: Onde Nascem as Imagens" reúne desenhos feitos sobretudo na década de 1920 e traça um "panorama do percurso da mente criativa da artista", afirma Emerson Castilho, museólogo da instituição. Segundo Castilho, os desenhos expostos não são propriamente obras finalizadas —rabiscados em cadernos da artista, são estudos, rascunhos, os primeiros pensamentos que Tarsila transferia para o papel quando tinha ideias para uma pintura. Ela também usava as folhas para fazer os exercícios da escola de arte que frequentou em Paris, a Académie Julian. Um dos pontos altos é um estudo para a pintura "A Negra". Vemos os contornos a nanquim da figura de formas tubulares de inspiração cubista —reflexo das aulas de Tarsila com Fernand Léger na capital francesa— que evoluiria e depois tomaria a forma de uma pintura que se tornou central para o modernismo brasileiro. Outro destaque são as iconografias pouco associadas à obra da artista, a exemplo de uma série de desenhos de nus masculinos e de composições abstratas também de inspiração cubista. Há ainda um autorretrato em que vemos Tarsila de cabelo curto, em busca de se representar como uma mulher de vanguarda, antenada à sua época. Os desenhos da mostra foram pouco vistos. Embora constem no catálogo raisonné de Tarsila, a publicação se baseou em fotos de quando eles foram expostos no MAM do Rio de Janeiro, no final da década de 1960, não nas folhas em si, porque os organizadores do livro não tiveram acesso às ilustrações, segundo o museólogo do Fama. Ainda de acordo com ele, quando Marcos Amaro adquiriu a coleção —numa negociação intermediada por Aracy Amaral, a maior conhecedora de Tarsila, que acaba de morrer—, as obras passaram por processos de higienização e restauro. Trata-se do maior conjunto de desenhos de Tarsila na posse de uma instituição. A exposição foi organizada junto aos herdeiros de Tarsila, que cuidam do legado da pintora. Quem está à frente é Paola Montenegro, a sobrinha-bisneta da artista, responsável pelas exposições e pelos licenciamentos de produtos da modernista desde janeiro de 2023. Montenegro ocupou o cargo que antes era de Tarsilinha, sobrinha-neta da pintora e uma das grandes responsáveis por capitanear a valorização e a popularização do nome da artista no século 21. "É difícil entrar no lugar de uma pessoa que fez tanto pelo legado de Tarsila", diz Montenegro, em relação à Tarsilinha, com quem ela afirma não ter relação. A família da artista é rachada em duas partes, que disputam o comando dos direitos autorais da maior pintora brasileira. Quando assumiu o legado de Tarsila, com 28 anos, Montenegro era um nome totalmente desconhecido no mundo da arte. "As pessoas não são conhecidas até elas virarem conhecidas. Enfrentei muita resistência por causa da minha idade, mas isso é uma coisa que eu não posso mudar", ela diz, sobre a passagem do tempo. Hoje, com 31, Montenegro já ajudou a pôr de pé 11 exposições de Tarsila, tanto mostras importantes na França e na Espanha quanto outras imersivas, ou seja, sem as obras reais, a exemplo de uma agora em cartaz em São Paulo. Ela também esteve envolvida no musical sobre a vida da modernista encenado por Claudia Raia. "Venho mostrando que meu trabalho está sendo feito com seriedade." Montenegro, que era DJ, mas não toca há dois anos, agora se dedica integralmente a cuidar do legado de sua tia-bisavó. Conta também que está concluindo uma pós-graduação em museologia. Ela também esteve à frente da autenticação de uma pintura e de uma série de desenhos de Tarsila, que ficaram a cargo do perito Douglas Quintale. As certificações, contudo, são contestadas pelo mercado e pela própria Tarsilinha. E há o fato de as obras não fazerem parte do catálogo raisonné da artista. Montenegro afirma encarar como um "movimento natural" a resistência às certificações por não serem mais as mesmas pessoas de antes as responsáveis pelas autenticações de obras de Tarsila. "Eu prefiro pensar que tudo isso acontece pela mudança na gestão", diz, acrescentando que a família fez eventos para mostrar aos interessados como é feito o processo, baseado em três pilares —o físico-químico, o histórico e a proveniência. Por fim, ela afirma que pedidos para autenticação de obras de Tarsila vêm surgindo, e que mais de 30 falsificações já foram constatadas.

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