No filme "Odisseia", de Christopher Nolan, há o momento em que o herói invoca os que estão sob a terra. Está assim no canto 11 da narrativa atribuída a Homero: "cavei um fosso, cerca de um cúbito de altura e largura, / e em sua borda verti libação a todos os mortos: / primeiro, misto com mel, depois com vinho doce / e a terça com água: em seguida, aspergi branca cevada." (Tradução de Christian Werner). Um coquetel considerável, ao qual é acrescentado o sangue escuro de "bestas". Funcionava —ao menos na mitologia. A prática da libação era comum entre os gregos antigos. Consistia nisso mesmo: despejar um tantinho da jarra ou tigela de vinho ao chão, caso se quisesse ofertar aos finados, ou num altar, para falar com os deuses e pedir por fartura, felicidade, vitórias, etc. Entre nós ela continua: é a famosa cachaça "para o santo", herança das religiões tradicionais africanas. É uma forma de abrir um canal com o divino, o mistério, os mortos. No Caribe (rum) e México (mezcal "para los que ya se fueron") é parecido. Há evidências arqueológicas de que, no Egito de seis mil anos atrás, bem antes do gesto de Odisseu, costumava-se derramar vinho, água, cerveja, óleos ou leite para purificar túmulos e templos. E também enviar, por um canal de pedra, vinho aos mortos. Na Suméria, onde hoje é o Iraque, acreditava-se que os mortos só se alimentavam de pó. Ou seja, estavam sempre com a garganta seca. Daí que, à semelhança dos egípcios, os prestimosos parentes derramavam um goró por um tubo de barro. De acordo com o influente "O Ramo de Ouro", livro do antropólogo James Frazer, na Birmânia, antiga Mianmar, faziam-se libações para pedir por chuva. Derramavam-se bebidas ao pé do maior tamarindeiro da região e, em seguida, três mulheres ricamente vestidas cantavam para os espíritos. Já na ilha japonesa de Yeso (hoje Hokkaido), o povo ainu costumava derramar saquê sobre o corpo de um urso à medida que o preparava para a refeição. Talvez a carne ficasse mais macia, mas o propósito era mesmo homenagear o bicho, que acreditavam ser uma divindade. A lista é infindável, já que rituais semelhantes eram praticados em todas as partes do mundo. Em termos contemporâneos, o gesto tem alguma afinidade com o brinde. Suspendemos o impulso do primeiro gole para antes reconhecer o outro, seja ele humano ou simbólico (datas, conquistas, amizades, amores) —o divino não é muito invocado. Voltando à Grécia de Sócrates e Péricles, existia também o simpósio. Não era exatamente uma conferência acadêmica, mas um encontro para beber em grupos. É o título original de "O Banquete", de Platão. Depois de comer e debater temas filosóficos ou mais mundanos, os convivas partiam para o vinho, não sem antes derramar gotas respeitosas. Curiosamente, controlava-se a bebedeira —o vinho era bastante diluído em água. O que, convenhamos, é um sacrilégio. Symposium (receita de Simon Difford) 45 ml de Metaxa 22,5 de vinho do Porto branco 22,5 de Porto Tawny 3 lances de bitter de laranja Mexa os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupe. Decore com uma rodela de casca de laranja. Antes do primeiro gole, despeje uma gota na capa de "O Banquete" LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Desde antes da 'Odisseia' se bebia 'para o santo'
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