Dem�ncia e armas em casa elevam risco de suic�dio entre idosos

Dem�ncia e armas em casa elevam risco de suic�dio entre idosos

Ele tinha 72 anos, era um administrador de saúde aposentado que morava sozinho perto de Seattle, nos Estados Unidos. Laura Prater, pesquisadora de armas de fogo em Ohio State, o estava entrevistando pelo Zoom. Ela havia aplicado um questionário que indicava que ele tinha comprometimento cognitivo leve, o que frequentemente, mas nem sempre, é um precursor da demência. Seu médico também o havia diagnosticado com depressão. Como parte de um estudo sobre segurança de armas de fogo para idosos, Laura Prater perguntou se ele mantinha uma arma em casa. Ele mantinha. Ele ainda possuía a espingarda que usava para caçar pássaros, embora não caçasse há anos, e havia adquirido recentemente uma pistola calibre .45. "Ele a guardava descarregada na gaveta do criado-mudo", aprendeu ela com a conversa deles. "A espingarda, ele apoiava ao lado da cama", descarregada, mas com os cartuchos em cima do criado-mudo. "Ele os via como uma ferramenta prática para se proteger, porque morava sozinho", diz Prater. Ela via a situação de forma diferente: um idoso cujos diagnósticos o colocavam em risco de confusão e suicídio mantinha duas armas desprotegidas ao alcance da mão todas as noites. "Era alarmante", diz ela. "Mas não incomum." Enfrentando uma população crescente de idosos com demência e com armas de fogo em suas casas nos Estados Unidos, especialistas em saúde pública têm trabalhado há anos para abordar a ameaça que as armas representam para seus proprietários e para terceiros. Pesquisadores estimam que pelo menos um terço das pessoas com demência tem acesso a armas de fogo. Persuadi-los a abrir mão de suas armas pode ser uma batalha perdida. Os proprietários citam a proteção como um motivo principal para ter armas de fogo, de modo que "você está tirando a identidade deles como protetores, removendo uma parte de quem eles são", diz Kelsey Conrick, pesquisadora do Centro de Prevenção de Lesões por Armas de Fogo da Universidade de Washington. A estratégia mais eficaz, segundo estudos, segue uma abordagem de "redução de danos": discutir os riscos, focar no armazenamento seguro, com armas descarregadas e trancadas, e fornecer gratuitamente dispositivos como travas de gatilho e cofres. "Os idosos sofrem uma grande quantidade de danos causados por armas de fogo", diz Lena Makaroun, geriatra e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh. De acordo com dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, 8.226 americanos com idades entre 65 e 85 anos morreram por armas de fogo em 2024 —quase 23 pessoas por dia. Essa taxa de mortalidade não é muito maior do que a taxa geral, mas os homicídios são mais altos entre os jovens. Mais de 90% das mortes por armas de fogo entre idosos são suicídios. Pesquisadores que esperam reduzir esses números estão agora observando idosos que, como o administrador aposentado, não receberam um diagnóstico de demência, mas estão experimentando piora na confusão ou perda de memória. Uma pesquisa em sete estados dos EUA descobriu que um terço das pessoas com 65 anos ou mais com esse "declínio cognitivo subjetivo" relatou ter uma arma em seus domicílios, e um quarto delas não as havia guardado com segurança. Essa foi uma proporção maior de armazenamento não seguro do que entre aqueles com cognição normal, embora a diferença não tenha sido estatisticamente significativa. "Nos preocupamos com a possibilidade de essas pessoas ficarem confusas e terem acesso rápido e desimpedido a uma arma de fogo", diz Kelsey Conrick, autora principal do artigo. Assim como aqueles diagnosticados com demência, eles podem correr um risco maior de suicídio, disparo acidental de arma de fogo ou tiros equivocados contra familiares, visitantes ou cuidadores domiciliares. Como o comprometimento atual desses pacientes é menos grave, os profissionais de saúde podem iniciar conversas mais cedo sobre acesso e armazenamento, enquanto os pacientes ainda podem tomar decisões. "Permitir que as pessoas façam suas próprias escolhas é uma vitória no meu entendimento" e tem mais probabilidade de reduzir práticas de risco, diz Kelsey Conrick. Pode ser difícil para quem não usa ou não possui armas de fogo compreender o apego feroz que muitos proprietários sentem, um vínculo que pode se intensificar com o tempo. "Com o envelhecimento vem uma sensação de vulnerabilidade", diz Marian Betz, médica emergencista e diretora da Iniciativa de Prevenção de Lesões por Armas de Fogo da Universidade do Colorado Anschutz. Idosos donos de armas "temem ser vitimados, o que pode ser um medo válido", diz ela. As armas os fazem sentir mais seguros, mesmo que não estejam: uma meta-análise frequentemente citada de 2011 relatou que uma arma de fogo em casa aumentava o risco de suicídios e acidentes, sem "evidências credíveis" de dissuadir crimes ou reduzir ferimentos decorrentes de invasões ou altercações. Ainda assim, "os números nem sempre motivam as decisões das pessoas quando estão relacionados ao medo ou ao risco", diz Marian Betz. Ela liderou um estudo publicado em 2020 que descobriu que, entre cuidadores de pessoas com demência, apenas cerca de 5% disseram que um profissional de saúde já havia discutido a segurança de armas de fogo com eles. Na verdade, os pacientes podem não contar aos seus médicos que possuem armas, em parte devido a um equívoco de que revelar depressão ou demência poderia levar ao confisco de suas armas. Essas condições, por si só, não exigem que a equipe médica tome tal atitude. Mesmo que quisessem relatar um perigo, apenas 22 estados e Washington possuem leis de ordem de proteção de risco extremo que podem restringir temporariamente o acesso a armas de fogo. Além disso, as famílias podem ter relutância em confrontar seus membros idosos sobre armas de fogo em casa. Quando os pesquisadores entrevistaram 50 pessoas que cuidavam de alguém com demência, muitos dos cuidadores tinham visto comportamentos imprudentes ou situações de risco iminente que os assustaram. Mas eles também temiam a discórdia que provavelmente surgiria se pressionassem os idosos proprietários de armas resistentes a se desfazerem de suas armas ou a guardá-las com segurança. "Os cuidadores se preocupam que esse conflito os afaste da pessoa com quem terão que navegar por muitas mudanças", diz Chris Knoepke, autor principal do estudo e pesquisador de serviços de saúde na Universidade do Colorado Anschutz. Pesquisadores de armas de fogo estão trabalhando em várias frentes para ajudar médicos e famílias a enfrentar essa questão potencialmente volátil. Laura Prater e sua equipe, por exemplo, estão preparando vídeos para orientar os clínicos em conversas sobre armazenamento seguro. O programa Pathways 2 Safety de Kelsey Conrick, que trabalha com agências comunitárias para integrar discussões sobre armas de fogo aos cuidados de saúde de rotina, distribuiu mais de mil dispositivos de trava desde março. Na Universidade do Colorado, Marian Betz desenvolveu o Safety in Dementia, uma ferramenta online que ajuda os cuidadores a se prepararem para a tomada de decisões sobre armas de fogo e outros perigos. Outro conjunto de ferramentas, o Firearm Life Plan, permite que os proprietários documentem o que deve acontecer quando não puderem mais usar armas de fogo com responsabilidade. Quase 16.000 pessoas o utilizaram desde 2022, de acordo com a universidade. Discussões sobre segurança de armas de fogo deveriam se tornar parte de uma consulta anual de bem-estar do Medicare, propuseram Lena Makaroun e seus coautores em um editorial recente do New England Journal of Medicine. Essas consultas atingem cerca de 60% dos beneficiários e enfatizam a segurança e a prevenção. "Isso é algo que todos podemos apoiar", diz ela. "Não é político. De modo geral, os donos de armas de fogo são muito comprometidos com a segurança." Lena Makaroun viu o que pode acontecer quando a segurança das armas de fogo não é reconhecida nem abordada em idosos com declínio cognitivo. Em 2019, um paciente na casa dos 80 anos com perda de memória foi encaminhado à clínica dela para avaliação. Testes cognitivos determinaram que "ele tinha um comprometimento compatível com demência", diz ela. "Compartilhei isso com ele e com o filho dele." Eles conversaram sobre como administrar os sintomas e quais tratamentos poderiam desacelerar o declínio. Ela solicitou exames de sangue para descartar outras causas, como problemas de tireoide. "É um diagnóstico assustador de se receber, então expliquei que estaríamos com eles a cada passo do caminho", diz ela. O homem "não demonstrou realmente nenhum sinal de sofrimento, apenas absorveu a informação." Os testes não haviam indicado que ele sofria de depressão. No dia seguinte, quando Lena Makaroun ligou com os resultados do exame de sangue, o filho dele atendeu o telefone. "Ele havia encontrado o pai no porão na noite anterior", diz ela. Ele havia morrido com um tiro na cabeça.

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