Deixem as m�es at�picas em paz

Deixem as m�es at�picas em paz

Anos depois da decisão de se separarem, muitas mulheres seguem aprisionadas por um sentimento avassalador de exaustão diante da necessidade de interagir com o genitor de seus filhos. O mesmo que sentiram levando uma vida sozinha a dois. Mas agora com plateia e palpiteiros de plantão. E advogados aguardando um deslize para condená-las como péssimas mães. Mulheres separadas com filhos com deficiência é um tema pouco explorado nos painéis de saúde mental e abuso psicológico. A título de comparação, dados recentes indicam que 13% das mulheres que foram vítimas de feminicídio em 2024 tinham medida protetiva de urgência em vigor no momento em que foram assassinadas. Em 2026, sabemos que uma mulher é morta por feminicídio a cada cinco horas e vinte e cinco minutos no Brasil. Dados alarmantes e revoltantes e distantes de uma solução, mas de fácil compilação estatística. Diferentemente do ataque físico que deixa marcas visíveis, o assédio moral tem outra feição, mas não menos violenta e cruel. Sutil, certeiro, que machuca sem deixar marcas. Como denunciar? Como se proteger? E como se desvencilhar de uma situação com potencial de minar autoestima, confiança, clareza e relacionamentos, entre inúmeros aspectos brutais? O famoso ataque à mulher, "ela é louca", quando na verdade é vítima de manipulação e distorção dos fatos. Um exemplo são as crianças com paralisia cerebral severa, que precisam de auxílio para todas as suas atividades, inclusive para falar com os pais. E é aí que as mães estão mais vulneráveis, ouvindo ataques sem fim sobre não serem a mãe adequada para seus filhos. Ações rotineiras são questionadas e apontadas como erro. São acusadas de negligenciarem seus filhos e os deixarem de lado. De serem rainhas ou madames (por serem mães atípicas, mas terem seguido suas vidas). Não são comentários inofensivos, apesar de muitas vezes parecerem bobinhos. São comentários de quem quer diminuir e desqualificar as mães. E são ditos justamente pelas pessoas que elas escolheram manter distância no dia a dia. Mas estão amarradas e condenadas a uma convivência dolorosa e constante. Quem poderá julgar se esses relacionamentos são abusivos? Quem é bom pai e boa mãe? Pouco se sabe sobre as 500 mil pessoas que convivem com a paralisia cerebral no Brasil. E há muito romantismo em torno do tema também. Que as famílias receberam uma missão e que Deus dá o frio conforme o cobertor. Existe sim uma beleza nessa jornada e descobertas incríveis no convívio com crianças tão limitadas quanto cheias de vida. Que iluminam a cada sorriso. Mas existe também o cansaço físico de quem cuida. E a dependência de profissionais que auxiliem nesses cuidados, na ausência de uma rede de apoio. Com isso, vem muito julgamento. Essas mães não deveriam largar seus empregos? Deveriam ir a festas? Poderiam se divertir, terem outros interesses além do filho? Muito julgamento, pouco conhecimento e quase nenhuma ajuda. A Apae classifica esse tema como uma urgência social e implementou em algumas de suas unidades o programa "Cuidar Mais", que oferece atendimento às mães e familiares de crianças atípicas. O estudo Retratos do Autismo do Brasil demonstra que 48% dos cuidadores têm dificuldade de encontrar tempo para descansar e exercer o autocuidado, o que pode resultar em doenças graves e comprometer ainda mais os filhos dependentes. A realidade da mãe atípica é um tema de nicho em nossa sociedade diante de tantas questões preocupantes. Elas aprenderam a se virar. A se cuidar. A coexistir em sua própria vida. Aprenderam a lidar com o incerto, com o medo do futuro de seus filhos. E, principalmente, aprenderam a não desistir. Deixem as mães atípicas em paz. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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