Uma nova pesquisa encontrou uma associação entre as políticas de expansão de energia solar na China nos últimos anos e o declínio de espécies de aves por todo o país. O trabalho saiu na última quinta-feira (20) na revista Science. O governo chinês pretende implementar um projeto de expansão ostensiva de usinas fotovoltaicas por todo o território, visando transformar até 45% de toda a sua produção energética em solar até 2060. No entanto, segundo os autores do estudo, as políticas de incentivo ao crescimento da energia solar não foram modeladas pensando em proteger a biodiversidade de aves. Houve um declínio de aproximadamente 2,1% no índice de riqueza de espécies de aves no período de 2014 a 2023, associado à expansão das placas para energia solar no país. Tal impacto não foi uniforme. Foi mais pronunciado em regiões mais ricas e não desérticas, enquanto as políticas de incentivo à energia solar em regiões desérticas –como o deserto de Gobi– não estiveram associadas ao declínio da biodiversidade de aves. No estudo, Huiming Zhang, professor associado da Universidade de Ciência e Tecnologia da Informação de Nanjing e colegas chineses, dos Estados Unidos e do Vietnã, analisaram as políticas de expansão de painéis fotovoltaicos no território chinês nos âmbitos estadual (províncias), municipal e distrital (condados) em 2.344 condados. Depois, eles coletaram registros de aves do Centro de Registro de Birdwatching Chinês, uma plataforma de usuários amadores com alto rigor científico, e cruzaram esses dados com as espécies incluídas na lista nacional de animais selvagens protegidas. Os cientistas mapearam por satélite o índice de área verde (LAI, na sigla em inglês) para saber como o uso da área —da vegetação florestada à pastagem e à instalação dos painéis— mudou ao longo dos dez anos. A diversidade de espécies de aves foi calculada a partir do índice Shannon, que integra riqueza (número) de espécies e distribuição espacial. Quanto maior o índice, mais complexa e saudável é a comunidade ecológica. Um índice menor significa menor complexidade ecológica e baixa riqueza de espécies. Segundo Zhang, a queda de 2,1% não significa que essa proporção de espécies tenha desaparecido. "É uma mudança média modesta no âmbito de condados, mas pode ser ecologicamente significativa quando se repete em muitos lugares", diz. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas Em relação à área verde, porém, os pesquisadores encontraram um aparente paradoxo: houve um aumento nas áreas verdes no território chinês nos locais onde foram instaladas as placas fotovoltaicas. No entanto, estas regiões tinham menos espécies de aves, o que eles chamaram de "inferioridade verde". Isso ocorre, segundo os autores, porque a vegetação que cresce sob os painéis solares é homogênea e, em geral, restrita a espécies de gramíneas e outros tipos de monocultura, ambientes ecologicamente pouco diversos. "Uma paisagem pode se tornar visualmente mais verde enquanto se torna ecologicamente mais simples", afirma Zhang. As espécies de aves que vivem em habitats ecologicamente mais complexos ou que precisam de diversos ambientes para forrageio, reprodução e criação dos ninhos desaparecem desses locais.Espécies carnívoras e onívoras apresentaram queda significativa, enquanto não foi detectada uma resposta semelhante entre as herbívoras. Aves migratórias e residentes foram igualmente afetadas. Ainda segundo o pesquisador, o estudo não pretende demonstrar que a expansão da energia solar não deve ocorrer. Mas os autores defendem que as políticas de incentivos à energia solar sejam calculadas considerando os potenciais impactos na biodiversidade. "A mudança climática continua sendo um dos principais fatores de perda de biodiversidade, e os benefícios climáticos globais da energia solar superam amplamente seus custos ambientais específicos." Os impactos foram ainda mais pronunciados na fase inicial de implementação de novas políticas, período que pode envolver escolha rápida de áreas, retirada da vegetação e obras. Para os autores, é justamente nesse momento que medidas como avaliação prévia da biodiversidade, exclusão de habitats sensíveis, criação de zonas de amortecimento e planos de restauração devem ser incorporadas aos projetos. Eles concluem que frear a transição energética não resolveria por si só o problema da biodiversidade, mas defendem um planejamento de maneira a evitar que uma solução para a crise climática amplie outra crise ambiental. Entre as alternativas estão direcionar grandes projetos para áreas de menor conflito ecológico e usar espécies nativas diversas na recuperação da vegetação. Para Zhang, a mesma preocupação vale para países como o Brasil, embora a magnitude dos impactos dependa dos ecossistemas, do uso da terra e das políticas locais. "A lição geral é que a expansão solar impulsionada por políticas públicas exige salvaguardas para a biodiversidade, e a magnitude específica e a distribuição espacial dos efeitos podem variar conforme os ecossistemas locais."
Decl�nio de esp�cies de aves � associado � expans�o de energia solar na China, diz estudo
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