Nos últimos dias de julho, milhares de pessoas lançaram-se ao mar diante de Ceuta, enclave espanhol situado na costa africana. Muitos nadaram ao redor das cercas que separam o território espanhol do Marrocos; outros atravessaram por terra ou saltaram as barreiras. Dezenas morreram. As imagens de corpos avançando pela água reativaram, na Europa, a linguagem da "ão". Mais uma vez, o Mediterrâneo aparece não como espaço de circulação, mas como linha que separaria a civilização daqueles que supostamente vêm perturbá-la. Algumas reações são de um cinismo preocupante: europeus esbravejam porque africanos migram para um território situado... na própria África. É difícil assistir à "Odisseia" sem pensar nessa atualidade. O filme, lançado em julho, não se limita a transportar para a tela os episódios famosos do poema atribuído a Homero: o ciclope, Circe, as sereias, o regresso a Ítaca. Christopher Nolan insere na narrativa um elemento estranho ao texto homérico, mas ligado ao mundo histórico no qual a tradição sobre a guerra de Troia foi situada: os chamados "do Mar". A expressão "do mar" já aparecia em monumentos egípcios e foi usada, no século 19, por estudiosos modernos para nomear grupos que invadiram a terra dos faraós, mas também outros migrantes, mercenários ou populações em deslocamento no final da época do Bronze (cerca de 3.300-1.200 a.C.). Durante muito tempo, foram apresentados como uma horda invasora que teria destruído palácios e cidades do Mediterrâneo oriental e de parte do Oriente Próximo. Hoje, essa explicação sobre a invasão dos povos vindos do mar é questionada por historiadores. Por volta de 1200 a.C., reinos como o dos Hititas desapareceram, cidades foram abandonadas, redes mercantis se romperam. Na Grécia, os palácios micênicos desapareceram e a escrita "B" deixou de ser usada. Mas não houve um colapso único nem uma causa exclusiva. Guerras, revoltas internas, secas, crises de abastecimento, movimentos populacionais e a fragilidade dos sistemas palacianos combinaram-se de modos diferentes em cada lugar. Os "do Mar" —ou melhor, populações migrantes muito diversas— podem ter participado dessa transformação; dificilmente foram o agente exterior responsável por tudo. Numa entrevista recente, Nolan comparou Odisseu a Oppenheimer, retratado em seu filme anterior: ambos concebem uma máquina para vencer uma guerra —a bomba atômica, o cavalo de Troia— e acabam destruindo o próprio mundo em que viviam. Ele faz dessa ideia o segredo do filme. Ao longo da narrativa, os habitantes de Ítaca e de outras cidades temem saqueadores vindos do mar. Penélope, a esposa de Odisseu, é pressionada a escolher um novo marido porque o reino precisaria de um chefe capaz de organizar sua defesa. O inimigo permanece invisível, mas sua ausência só aumenta o medo. A revelação ocorre quando Odisseu enfrenta a memória da destruição de Troia. O cavalo, apresentado aos troianos como uma oferenda, permitiu aos gregos entrar na cidade e abrir suas portas. Para Nolan, o estratagema não foi apenas um ardil militar: foi a violação da "xenia", a obrigação sagrada de acolher e proteger o estrangeiro. Na sociedade dos poemas homéricos, viajar significava depender de desconhecidos. Um hóspede podia ser um deus disfarçado; maltratá-lo colocava em risco não apenas o indivíduo, mas a ordem que tornava possível a vida coletiva. Ao converter um presente de hospitalidade em uma arma, Odisseu teria rompido esse vínculo. É então que Penélope lhe diz: "Ês são os Povos do Mar". A frase concentra a interpretação de Nolan. Os gregos voltam de Troia acreditando retornar à civilização, mas carregam consigo a violência que a destruiu. O inimigo temido em Ítaca não é inteiramente exterior. São os próprios vencedores, incapazes de reconhecer as consequências de sua guerra. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Não se trata de uma reconstrução histórica. Nada permite identificar os gregos de Troia com grupos chamados de Povos do Mar. Nolan usa a incerteza arqueológica para produzir uma alegoria: sociedades em crise frequentemente atribuem sua instabilidade a estrangeiros, migrantes e inimigos que atravessam fronteiras, quando as causas também se encontram em suas guerras, no colonialismo, nas desigualdades, escolhas políticas e instituições fragilizadas. O paralelo com Ceuta exige cuidado. As pessoas que atravessaram a fronteira não são invasoras da Idade do Bronze, e transformá-las em personagens de uma narrativa de colapso apenas repetiria o mecanismo criticado pelo filme. A questão sugerida pela Odisseia é outra: por que o estrangeiro se torna tão facilmente a imagem de todos os perigos? Nolan oferece uma resposta incômoda. É mais simples vigiar o mar do que olhar para dentro. Mais simples imaginar bárbaros aproximando-se dos muros do que admitir que a violência empregada para proteger uma ordem pode corroer os princípios que a sustentam. Como o cavalo de Troia, a Odisseia entra nos cinemas disfarçada de espetáculo épico. Dentro dela, porém, viaja uma advertência: antes de perguntar quem são os povos que vêm do mar, talvez devêssemos perguntar que mundo os recebe, e quem começou a destruí-lo.
De Troia a Ceuta, quem s�o os inimigos que v�m do mar?
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