Todo cronista ou colunista há um dia de encarar o eterno tema dos temas: o "nada". Por que não eu? Pois então. Comecemos dizendo que a palavra "nada" dá bem mais que uma coluna. E provemos. Primeiro que em latim não se dizia "nada". A palavra mais próxima desse sentido era "nihil" e, mais tardiamente, "nulla" (fonte do nosso verbo "anular", por exemplo, "transformar em nada"). Mas aquele "nihil" também deixou suas marcas entre nós: do "niilismo" (nadismo) à "aniquilação" (nadificação), que parte de uma pronúncia posterior, "nichil". Mas e o nosso "nada"? Que que ele tem que ver com "nihil"? Nada. Ou quase. O fato é que o peso do gramatiquês que teima em achar que língua é aritmética —e que duas palavras negativas usadas juntas geram uma afirmação— já batia na cacunda dos usuários daquele latim tardio que começaram a usar uns torneios vagos pra fugir dessas construções, mais ou menos como nós podemos dizer "coisa alguma" em vez de "nada". E foi em construções como "non vidi rem natam" ("não vi coisa nascida", com o sentido de "não vi ninguém") que apareceu esse "nata" que nada (desculpa...) mais era que o particípio passado do verbo "nascer". A gente ainda usa esse particípio curto em frases como "ela é uma artista nata", que no fundo quer dizer que que ela é "nascida" assim. O curioso é que, apesar de esse uso ser uma tentativa direta de fugir ao tal fantasma da dupla negação, o ouvido dos falantes é tão acostumado com a construção redundante que acabou imputando sentido negativo à palavra "nascida", que a partir daí passa a ser sinônimo de "nihil" e gera, ora vejam só, nova dupla negação. Respira... Aliás, se você acha que eu uso parênteses demais, eu não vou usar aqui, tá? Mas considere que esse parágrafo todo está entre parênteses, porque ele só existe pra eu mencionar que a "nata" do leite, ou da sociedade, não tem nada que ver com essa: ela é uma forma do verbo "natare", origem do nosso "nadar", com aquele "T" que ainda aparece entre as vogais em derivados mais conservadores como "natação". A nata é o que boia, fica por cima, nada. Interessante é que o "nihil" clássico foi substituído em todas as línguas românicas, o que é prova mais do que clara de que, mesmo nas variedades populares e tardias do latim, ele já andava mal das pernas. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias O francês, por exemplo, é uma língua que usa "rien" para traduzir o nosso "nada". E o divertido é que a origem das duas palavras é meio que a mesma, pois a palavra francesa vem da parte "rem" ("coisa") daquele "rem natam". Mas eu sei que, a essa altura, você está mesmo é querendo saber como se diz "nada" em romeno, aquela prima mais desconhecida do mundo das línguas derivadas do latim. Sem suspense: a palavra é "nimic". Uia. Parece de outro mundo, mas vem de um latim "ne mica", que, em mais uma estranha tentativa de usar construções que fujam da dupla negativa mais gritante, quer dizer "nem migalha". Curiosidade a mais? O português já teve (e o galego também) o uso de "nemigalha" como sinônimo de "nada". Está vendo? Não é pouca coisa por trás de um mero nada. Ou de uma "nonada", palavra que significa "ninharia" e aparece em português já no século 16, como seguramente sabia Guimarães Rosa. E por hoje é tudo. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
De onde ser� que vem a palavra que usamos para dizer 'nada'?
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