De 'Argh' a 'Zema', um abeced�rio do p�r do sol do que somos

De 'Argh' a 'Zema', um abeced�rio do p�r do sol do que somos

Argh. O falatório insano vai até outubro. Depois haverá balanços, especulações, lobbies, a roleta dos ministeriáveis e, no ano que vem, a posse dos eleitos. Política cansa. Melhor esperar o Carnaval para governar. Aécio. Um ufa de alívio varreu a JBS quando o macilento mineirinho anunciou que não será candidato. A empresa carnívora atestou, numa delação premiada, que deu R$ 110 milhões para tramar a súcia de 12 partidos que, em 2014, escorou sua ânsia em desfrutar do Planalto. Anticomunismo. Lula avisou que, "como estamos com o barco garantido, é hora de dar um salto de qualidade". Já que não há mais anticomunistas alfabetizados, não escarraram nele por usar uma expressão criada por Engels. Mas a física, sempre reacionária, insiste que barcos não saltam. Bolsonaro. Calado e invisível, é um ectoplasma, o que tem utilidade. Não há cristãos sem pagãos, patrões sem trabalhadores, deuses sem demônios, esquerda sem direita. Candidato. Vem do latim "candidatus", cândido, alvo. Em Roma, os candidatos punham togas brancas para mostrar que não tinham mancha, estavam limpos. Os candidatos do centrão têm horror à cândida, se enfeitam com as encardidas penas da asa da graúna. Chapéu. Em vez do velho refrão "Lula-lá", a nação petista adotará o jingle velhaco da campanha de 1950 de Getúlio, precursor do marketing chapeleiro: "O sorriso do velhinho/ faz a gente trabalhar". Fake news. Não cabe à inverdade universal se contrapor à mentira particular. Grotões. Elege-se um deputado federal em Roraima com 49 mil votos. Em São Paulo, é preciso dez vezes mais, meio milhão. Os 578 mil eleitores do Amapá têm três senadores; os 17 milhões de mineiros também. A democracia irrepresentativa vai bem, obrigado. Isonomia. Se Fábio Luís virou Lulinha, Flávio Bolsonaro devia ser chamado de Bolsonarinho. Ilusões. A opressão dos pobres pelos ricos, o aniquilamento da natureza, a degradação das cidades, as gangues entranhadas no Estado, tudo o que tenha a ver com saúde, segurança e educação —nada mudará rápida e radicalmente na eleição. A lenta queda livre num abismo sem fundo perdurará até que, ao arrepio das instituições, os brasileiros botem para quebrar. Marqueteiros. Estão em baixa. Comprar baciadas de influencers é mais barato. Pluralismo. "A verdade é una e o erro é múltiplo", disse Simone de Beauvoir. "Não espanta que a direita professe o pluralismo". Polarização. Existe desde que o centrão ateniense aprovou que Sócrates tomasse cicuta. Como sói acontecer, no segundo turno a situação estará de um lado e a oposição do outro. Pôr do sol do que somos. Fernando Pessoa disse algo cabível à eleição: "A ânsia de coisas impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Estes meios-tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos." Porreta. Na única frase que sobrou dos 62 minutos de seu discurso inaugural de campanha, o presidente disse que, em vez de "paz e amor", será "porreta". Trocou seis por meia dúzia e foi fiel à lengalenga apolítica e ególatra. Programa de governo. Coisa de pernósticos. Repita o que papagaiam todos: muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são. Roosevelt. Caso ganhe, o incumbente igualará o recorde de quatro mandatos do presidente americano. Roosevelt fez o "new deal" no primeiro. Santíssima Trindade. Um distinto deputado morreu de piripaque cardíaco aos 40 anos, e Delfim Netto disse que fora vítima da Santíssima Trindade brasiliense: champanhe, cocaína e putas. "É por isso que tanta gente quer ser deputado e senador", explicou. Acrescentem-se agora as emendas parlamentares – além da imorredoura porfia pelo bem da pátria. Vargas. Bonapartista patriarcal, é o modelo de Lula, noves fora a tirania torturante. Reajustou o salário-mínimo em 100% e, a pretexto do habitual mar de lama, a burguesia mandou a milicada abatê-lo. Vampiro. Não há candidato que queira ser visto com Michel Temer. Só o Banco Master recorreu a ele, mas teve de desembolsar uma cornucópia de R$ 7,5 milhões. Vice-presidente. É o melhor cargo da República, provendo casa, comida, roupa lavada e carro com chofer. O vice fica de olho em botinadas no titular, aguardando a convocação. Kassab, o bofe óbvio, quer a boquinha. Zzzzz. Zema. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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