O artista plástico Vik Muniz parece capaz de —e não é um clichê— extrair leite de pedra. Basta querer um dia usá-lo como elemento de suas obras. Lixo, chocolate, macarrão, algodão, flores, gelatina, clipes, palitos, arame, confete, cabelo, Muniz já empregou tudo isso em sua carreira, sempre nos fazendo pensar se há limite para a criatividade. Com os instrumentos que, às vezes, são as suas ferramentas (pinças, conta-gotas, alfinetes), ele ultrapassa esse limite. No dia 2 de setembro de 2018, em Zundert, na Holanda, ao inaugurar uma instalação de 65 mil dálias na casa onde nascera o pintor Van Gogh, Muniz soube do monstruoso incêndio do Museu Nacional, no Rio, provocado por um curto-circuito. Era a destruição de um patrimônio mundial da antropologia e das ciências naturais. "Passei a noite sem dormir", ele disse. "Foi como se um buraco se abrisse na minha cabeça, pensar que aquele lugar tinha deixado de existir. Não senti raiva. Senti vergonha". O Museu Nacional pagava pelo abandono que o governo federal sempre dedicou a tudo que deixou no Rio na mudança da capital para Brasília. De volta ao Brasil, Muniz recolheu literalmente cinzas do chão do museu e, usando-as como matéria-prima, reproduziu em esculturas ou quadros 20 peças que fizeram a glória do acervo. Foi ajudado pela equipe de restauração e pelos cientistas da PUC-Rio, e o resultado é a exposição "Rescaldo das Memórias", na sala em que começou o incêndio e onde ainda se podem ver as vigas retorcidas pelo fogo. Ali estão, com cada grão de cinza em primeiro plano e quase palpável, o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, com resíduos da própria Luzia, exemplares da fauna pré-histórica brasileira, a múmia de um gato egípcio, o sarcófago da sacerdotisa Sha-Amun-En-Su e a imagem da fachada do museu —fachada que, pelas dimensões da tragédia, temia-se que nunca mais ficasse de pé. Fui à exposição no fim de semana e entrei por esta mesma fachada, também magicamente recuperada. Das cinzas, pode renascer a vida. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Das cinzas para a vida
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