Da cria��o de bichos ao tr�fico, Vacaria foi cen�rio da opera��o mais letal da hist�ria do Brasil

Da cria��o de bichos ao tr�fico, Vacaria foi cen�rio da opera��o mais letal da hist�ria do Brasil

No alto da serra da Misericórdia, entre os complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, fica o local conhecido como Vacaria —oficialmente, a comunidade se chama Vila Marinha. Ao lado de uma pedreira em atividade, que deixa o ar carregado de pó, a área de mata, currais e campo de futebol concentrou os confrontos da Operação Contenção, a ação policial mais letal da história do país: foram 122 mortos, sendo 117 civis e 5 policiais. Um ano depois, o lugar segue ocupado por homens armados. Ainda não há autoria e investigação concluída sobre as mortes. A reportagem da Folha esteve na Vacaria acompanhando a retirada dos corpos da mata pelos moradores em outubro de 2025 e retornou neste mês. Em poucos metros, o cenário muda. Junto à pedreira em atividade, o pó no ar e o sol forte sobre o chão pedregoso deixam a boca seca. Na mata, a vegetação densa guarda ar frio, névoa e muitos mosquitos. "Aqui foi denominado como Vacaria porque existia muito bicho. Como vocês estão vendo aqui, o chiqueiro. Aqui existia muita vaca, muito porco", diz Erivelton Vidal, 49, nascido e criado na Penha. Galinhas e cavalos andam soltos, em meio a motos que passam com jovens segurando fuzis. O sinal de celular é escasso. Segundo a investigação, o crime organizado usa o local de difícil acesso para os chamados tribunais do tráfico. Casas pequenas, geminadas, ficam próximas. Quando a reportagem estava lá, presenciou moradores circulando com bebês, e crianças que brincavam descalças em um campo de futebol, que conta com uma área de churrasqueira e cobertura contra sol e chuva. Moradores afirmam que a área foi feita por Edgar Alves, o Doca, apontado como chefe do tráfico local e liderança do Comando Vermelho. Lá são realizados churrascos de aniversários para a comunidade e distribuição de brinquedos em épocas festivas. Presidente da associação de moradores, Erivelton conta que, na infância, o campo de futebol ficava mais acima, era o "campo do pó", de pó de pedra. Uma brincadeira comum era pular nos montes de areia acumulados pela pedreira e sair tingido o espaço de branco. Naquela época, diz, não havia casas, e o pessoal plantava na área. O motorista Joy Batista de Mancio, 70, guarda a lembrança dessa Vacaria totalmente rural. "Eu lembro da gente pegando manga, aí atrás. Bebendo leite de vaca, não tinha quase casa por aqui". Ele é filho de dona Tereza, personagem que já morreu e que é lembrada como a "síndica da Vacaria", já que dava água para as crianças e cuidava do campo. Seu rosto foi eternizado em um grafite no local. Com o tempo, o tráfico ocupou o lugar, e a favela cresceu em direção à mata. Segundo dados da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara Municipal do Rio, a área da Vila Marinha passou de 62.475 para 74.271 metros quadrados entre 1999 e 2022. Em 2012, a prefeitura e a Caixa Econômica Federal anunciaram o parque da Leopoldina, com equipamentos de lazer e educação ambiental em trecho da serra, mas o projeto não saiu do papel, e os recursos foram devolvidos. O advogado Gilberto Santiago jogava bola ali na infância, nos anos 1990 e meados dos anos 2000. Com o tráfico já presente no local, a mãe proibia, mas ele ia escondido. "O local em que eu jogava futebol sempre foi um ponto de venda de drogas. E ocorria de o nosso futebol, o nosso lazer, ser interrompido com o tiro de fuzil. Era comum também ver um homem morrendo, agonizando. Era algum morto pelo tráfico", disse. Para chegar à Vacaria, a reportagem passou por ruas com barricadas de metal. Em vários pontos, homens estavam armados. No dia da operação, em 28 de outubro de 2025, o plano era que a PM (Polícia Militar) cercasse a mata enquanto a Polícia Civil cumprisse mandados nas casas. Mas os policiais civis foram baleados ao entrar na mata, e o cerco virou uma ação de resgate, segundo depoimentos do comandante do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e do delegado André Neves ao Ministério Público, revelados pela Folha. O então secretário da PM, Marcelo Menezes, disse em entrevista coletiva que a área foi estratégica porque ali agentes do Bope encurralaram os criminosos. Gilberto aponta, na mata, o local próximo de onde morreu um policial civil com seis meses de corporação. À noite, com a polícia ainda na área, moradores se mobilizaram para procurar os mortos. O presidente da associação de moradores diz que chegou no escuro, com blindados da polícia por perto, pediu que todos acendessem a luz do celular e organizou um panelaço para atrair quem estivesse escondido. Diante da escada que ficou conhecida por imagens de um drone da PM, ele afirma que ninguém que subiu por ali voltou. Os mortos foram carregados em tecidos usados em eventos, trazidos por ele. Ao menos 60 corpos foram expostos na praça São Lucas até o amanhecer de 29 de outubro. Cápsulas de fuzil eram vistas ainda no chão, assim como marcas de tiros em pedras e árvores, pedaços de roupa e manchas de sangue. A polícia alegou tiroteio e escuridão para não recolher os mortos. Famílias dizem que foram impedidas de subir. Parte dos moradores que retirou os corpos passou a ser alvo da própria polícia. A 22ª DP (Delegacia de Polícia) abriu inquérito contra eles pela acusação de remover os corpos da Vacaria. A investigação foi suspensa.

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