D. Yolanda s� queria um dia livre para compras

D. Yolanda s� queria um dia livre para compras

Há alguns anos, fui contratada para fazer uma pesquisa em arquivos diplomáticos dos anos 1960. No meio de milhares de memorandos sobre as relações entre o Brasil e os Estados Unidos, encontrei comentários inusitados de oficiais americanos sobre seus pares brasileiros: "Está ficando careca", "Tem um carro muito velho", "Conta piadas de mau gosto", "Gosta de ver novela com a mulher". Passei a fazer duas pesquisas: a encomendada e uma outra sobre fofocas velhas da diplomacia. Numa época pré-internet, quando não era fácil obter fotografias, as descrições físicas tinham destaque nos relatórios. "Baixo, roliço, calvo e de óculos, o embaixador não tem um aspecto particularmente agradável. Em contraste, sua esposa é atraente, grande e de aparência germânica", dizia um memorando. No caso de um general, o que me prendeu foi a capacidade do americano de resumir a dinâmica de um casamento em poucas linhas: "Agressivo e enérgico, ele certa vez pulou de paraquedas após ser desafiado. [...] Sua mulher, Maria, é bastante nervosa." Saltam aos olhos, nesses documentos, os casos de infidelidade conjugal. Sobre um embaixador que foi transferido de Paris para Santiago, o americano escreveu: "Ele é muito simpático e hábil, mas foi transferido por indiscrições, como não apenas manter uma amante, mas tê-la como anfitriã em funções oficiais. Sua mulher ficou no Rio." Entre tantos documentos, fiquei particularmente interessada em um pedido de d. Yolanda Costa e Silva. Mulher do marechal Arthur da Costa e Silva, ela estava prestes a se tornar primeira-dama do Brasil quando resolveu ligar para a embaixada americana para falar sobre sua visita aos Estados Unidos, em janeiro de 1967. "Como sempre, d. Yolanda foi muito cortês, mas também bem franca", escreveu o oficial. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Poucos meses antes de assumir a presidência da Legião Brasileira de Assistência (LBA), d. Yolanda deixou claro que não queria visitar instituições de caridade ou monumentos. "Ela quer mais tempo livre para compras. E quer fazer isso de salto baixo, sem precisar se trocar correndo para eventos oficiais. Como cicerone, d. Yolanda pediu alguém que compreenda coisas mundanas, como pés doloridos e o desejo por liberdade de movimento." A expressão "coisas mundanas" me chamou a atenção aqui. Entre questões maritais, embaixadores calvos e a vontade de escapar às formalidades... nada parece mundano no jogo do poder.

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