Curtas queer incendeiam o Festival do Rio ao debater repress�o e masculinidade

Curtas queer incendeiam o Festival do Rio ao debater repress�o e masculinidade

Um homem chega em casa e em vez de encontrar a mulher e os filhos, se depara com um pênis de borracha debaixo da mesinha da sala. Outro vai a um templo neopentecostal e, em vez da ideia de "família tradicional", se depara com um rapaz que lhe enche de desejo. Essas são duas das narrativas que aparecem na ala de curtas do Festival do Rio, que neste ano tem uma boa safra de produções nacionais que buscam debater desejos, temores e vivências queer. O primeiro deles, "Consolo", dirigido por Johnny Massaro, provoca um taxista de meia-idade ao pôr o brinquedo sexual que dá nome ao filme em seu caminho. Embriagado não por álcool, mas pela lascívia do Carnaval, que toma o banco traseiro de seu carro nos minutos iniciais do curta, o protagonista se surpreende, ignora e então confronta o objeto. Pertence ele à sua mulher? À filha? Ao filho, que na calada da noite poderia estar surrupiando manteiga da geladeira para se divertir com o falo de borracha? As imagens lhe causam repulsa, mas também reflexão. O consolo não é de uso exclusivo de pessoas LGBTQIA+, claro, mas está muito associado ao universo gay. A ideia de Massaro era justamente instigar o homem heterossexual a se conciliar com um lado feminino, a abandonar o medo que vem de sexualidades desviantes da norma. "Ironicamente, o falo, símbolo máximo da virilidade, também é, muitas vezes, a raiz da insegurança masculina. E essa insegurança, por sua vez, é frequentemente convertida em barbárie", diz o ator e diretor. "Sinto que a ideia do ‘macho’ está intrinsecamente ligada ao medo —ao medo das possibilidades de ser, sentir e desejar." Entre o primeiro e o segundo curta, há um denominador comum —João Pedro Mariano, estrela de "Baby" que, sob a direção de Massaro, viveu o filho que lambuza o brinquedo sexual e que, sob a de Maria Luísa Alves, encarna o protagonista de "Santo". No filme, o personagem-título é um entregador de delivery que, entre uma marmita e outra, distribui panfletos sobre o fim do mundo, urgindo as pessoas a encontrarem Deus numa igreja neopentecostal. Uma delas é um outro entregador, gay, que lhe apresenta a um mundo de possibilidades nunca contempladas nos sermões que cresceu ouvindo. Repressão e libertação guiam os dois filmes, que não estão sozinhos na cota de diversidade da Première Brasil, ala de estreias nacionais do Festival do Rio. Há também "Autor Desconhecido", da dupla Daniel Wierman e Paulo Menezes, que põe Bruno Fagundes na pele de um cineasta que sofreu uma agressão sexual. À luz do trauma, ele decide reencenar aquela violência num projeto cinematográfico e passa a buscar atores para viver ele próprio e o homem que o teria dopado num bar. Enquanto encaixa as peças do que aconteceu naquela noite, vai descobrindo mais sobre si mesmo. Já em "Morfeu e Caronte", um retrato pouco comum na cinematografia queer, que costuma concentrar esforços em personagens mais novos e na descoberta. Aqui, o ex-Dzi Croquettes Bayard Tonelli mergulha seu personagem num onírico musical da era de ouro do gênero em Hollywood, enquanto fala de afeto e sexo gay na terceira idade. Distante dos protagonistas masculinos, "Pique-Pega" talvez seja o filme mais difícil dessa safra. Nele, Carol Duarte confronta a personagem de Malu Galli após um encontro por acaso, numa festa. A personagem da primeira tem um histórico marcado por mágoas com a filha da segunda e decide questionar o conservadorismo enraizado daquela mulher. Naquele evento social, afinal, ela se apresenta como alguém progressista, mas o passado mostra que a hipocrisia encontra morada em qualquer campo político. O jornalista viajou a convite do Festival do Rio

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