Cuba desmonta caderneta de racionamento ap�s 60 anos de produtos subsidiados

Cuba desmonta caderneta de racionamento ap�s 60 anos de produtos subsidiados

Sessenta anos depois, a caderneta com a qual milhões de cubanos compraram produtos a preços subsidiados está prestes a desaparecer. Os mercados de bairro substituem aos poucos as mercearias onde antes circulava essa caderneta, símbolo da igualdade que a revolução de 1959 quis impor. "É uma mudança completa em relação a tudo o que sempre vivemos", diz Paula Sonia Santiago, 64, diante de um mercado de bairro em Havana. Esses pequenos estabelecimentos começam a surgir em meio à reforma econômica conduzida pela ditadura comunista sob a pressão de Donald Trump. Submetida ao embargo dos Estados Unidos, agravado pelo bloqueio do petróleo, Cuba avança rumo a uma economia de mercado após décadas de modelo estatista. Sem nenhum anúncio oficial, os cubanos assistem ao fim da rede de mercearias onde, munidos apenas de uma caderneta, compravam alimentos básicos pelos quais pagavam um décimo do valor de mercado. Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo "O cubano se sente mal, porque não estamos acostumados" a viver sem esse sistema, lamenta Santiago. Para ela, assim como para muitos cubanos, essa mudança representa sobretudo a perda do acesso seguro e a preços acessíveis a produtos básicos em uma ilha onde 66% de seus 9,4 milhões de habitantes vivem em situação de pobreza, segundo um estudo privado publicado recentemente. O sistema de mercearias e da caderneta foi implantado por Fidel Castro (1926–2016) em 1963, diante da escassez de alimentos que o regime atribuiu ao embargo que Washington acabara de impor à ilha. Na chamada época das vacas gordas, um cubano, independentemente de sua renda, podia se alimentar durante um mês inteiro com a cesta subsidiada garantida pela caderneta. O sistema representava um custo anual de US$ 1 bilhão (R$ 4,99 bilhões) para o Estado cubano, segundo dados oficiais. E, nos piores tempos, conseguiu garantir "um mínimo" de alimentos, "sobretudo para nós, que temos tão pouco", recorda América Guillén, 82. Agora, "nós, os mais pobres, estamos passando por muitas dificuldades", acrescenta a idosa, que recebe a aposentadoria mínima. 'Não recebemos nada' O sistema de subsídios começou a se deteriorar com a crise vivida por Cuba na década de 1990, após a queda do bloco soviético, então principal aliado e sustentáculo econômico da ilha. Esse processo se intensificou em 2008, quando o então líder Raúl Castro (2006–2018) implementou uma política para eliminar "subsídios e gratuidades indevidos". Alguns produtos foram sendo gradualmente retirados da caderneta. No entanto, foi durante a Presidência de Miguel Díaz-Canel —no poder desde 2018— que a cesta subsidiada foi reduzida ao mínimo, em razão do endurecimento das sanções dos EUA contra a ilha. "A caderneta também está sendo extinta porque não recebemos nada", comenta Guillén. Nos últimos meses, as mercearias só tiveram à venda alguns quilos de arroz e açúcar. Essa situação obrigou os cubanos a comprar boa parte de seus alimentos, a preços muito mais elevados, nos supermercados estatais que operam em dólares ou nas pequenas lojas privadas autorizadas pelo governo em 2021. A gestão de Díaz-Canel reiterou sua intenção de subsidiar "as pessoas vulneráveis", em vez de conceder um subsídio universal. Até o momento, o governo criou 24 "mercados de bairro", onde cerca de 20 produtos básicos são vendidos por preços entre 10% e 15% inferiores aos praticados pelo setor privado. No entanto, os clientes constatam com amargura que os preços dos alimentos nesses novos mercados são muito semelhantes aos do comércio privado. "Se esta vai ser a nossa mercearia, considerando o poder de compra da maioria das pessoas, os preços deveriam ser mais baixos", opinou Ivón de la Riva, vendedora de café de 64 anos. Rafael García, 75, que comprou uma dezena de ovos no mercado Doña Luisa, resume o sentimento da população. "Não é que esteja mais barato; é que está menos caro" do que em outros mercados.

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