Depois do vídeo do Fábio Porchat, que viralizou nesta semana, muita gente se perguntou: como uma igreja pode virar uma casa de show, com celebridades, parede pintada de preto e ala VIP? O que aconteceu com a igreja contemplativa? Será que não estamos vendo um embuste? O que o leitor não pode esquecer é que a igreja é feita por pessoas que estão neste mundo e este mundo tem mudado rapidamente. Pesquiso o movimento pentecostal de classe média e alta há mais de uma década, particularmente a megaigreja australiana Hillsong, e como ela atrai brasileiros para Sydney, na Austrália, onde moro. É o modelo para igrejas como a Lagoinha. O que encontrei foi uma igreja que se expandiu globalmente ao adotar um estilo que chamo de cristianismo descolado. Num contexto em que os jovens estão abandonando as igrejas, este estilo de culto tenta atraí-los criando uma atmosfera informal, usando linguagem e tecnologia contemporâneas e concentrando-se na experiência religiosa. Por isso os cultos são shows de rock, com telões, luzes, câmeras, e os pastores têm tatuagens, falam informalmente e se vestem com roupas de marca. Pastores e a banda da igreja se tornam celebridades e influenciadores, criando seu próprio branding nas mídias sociais. Por sua vez, essas igrejas também atraem celebridades (que têm lugares reservados na ala VIP e "camarins" com bufê e garçons). A Hillsong no seu auge, por exemplo, tinha muitas celebridades americanas entre os seus fiéis, como Justin Bieber e Kendall Jenner. Celebridades brasileiras também frequentavam a igreja. A atriz Bruna Marquezine visitava a igreja nos EUA e o jogador David Luiz se batizou na Hillsong de Paris quando jogava pelo PSG. O que isso tudo mostra é que o movimento pentecostal não é só heterogêneo em relação à existência de uma ala conservadora e uma progressista, como comumente se discute. Há profundas diferenças (de estilo, rituais e crenças) entre as igrejas de periferias, frequentadas pelas camadas mais pobres da população, e as igrejas dos bairros nobres como Alphaville, frequentadas pela classe média alta. Conforme escrevi em "O Cristianismo Descolado: A Hillsong e a Criação de Identidades Cosmopolitas", com seu consumismo, uso da língua inglesa, luxo, branding e cultura de celebridade, é um cristianismo aceitável para as classes mais altas num país intensamente desigual e em que há tanto estigma em ser pentecostal, pois este é associado às classes populares. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A partir de 2021, a Hillsong entrou em declínio na Austrália e nos Estados Unidos sob o peso de escândalos financeiros e sexuais. No Brasil, a megaigreja continua forte, conta com duas filiais em São Paulo e evita se envolver em política. O que nos traz à Lagoinha. A igreja brasileira tem, há muitos anos, adotado integralmente o estilo descolado da Hillsong —na música, culto, estética e até logotipo. Com isso, tornou-se uma megaigreja, com filiais no Brasil e no mundo. A pergunta que fica é: com o escândalo do Banco Master, qual o futuro da Lagoinha? Esperemos o resultado das eleições.
Criticada por Porchat, Lagoinha oferece pentecostalismo para ricos
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