Vladimir Putin é o vilão do establishment europeu pelo menos desde 2008, quando usou a força para conter as ambições da minúscula Geórgia, que buscava virar um Estado da aliança militar Otan. De lá para cá, o autocrata russo só alimentou sua fama. Anexou a Crimeia quando um presidente pró-Kremlin foi derrubado em Kiev, em 2014, e completou o serviço com a desastrosa invasão total da Ucrânia oito anos depois. A guerra disseminou a percepção, que antes era restrita ao Leste Europeu, de riscos provenientes de Moscou. Até as neutras Suécia e Finlândia aderiram à Otan. Ao mesmo tempo, o retorno de Donald Trump à Casa Branca abriu uma era de desengajamento americano da defesa europeia e do apoio aos ucranianos, aumentando a preocupação nas capitais continentais. Segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, o gasto militar europeu cresceu mais de 90% em termos nominais entre 2021, ano anterior à invasão da Ucrânia, e 2026. Num continente marcado por séculos de conflitos e duas guerras mundiais, desconfianças antigas já se apresentam, não menos porque quem puxa o dispêndio é a outrora ameaçadora Alemanha. Nesse sentido, Putin vai colhendo parcialmente uma vitória estratégica: ele ampliou diferenças entre aliados ocidentais que vê como hostis, e o impacto econômico de sua guerra impulsiona partidos de ultradireita simpáticos à Rússia em toda a Europa. A disputa se acirra com incidentes de guerra híbrida —quando o agressor camufla sua identidade em atos menores. Houve tentativa de explodir aviões na Alemanha, incêndio em fábrica militar na Estônia e disrupções de aeroportos com drones. Em todos os casos, a Europa acusa a Rússia, que dá de ombros e denuncia suposta russofobia. Ao mesmo tempo, ambos os lados escalam sua presença bélica em áreas como o Báltico e o Ártico. Países da Otan falam em risco de ataque iminente, algo que até a aliança descarta. Mas o alarmismo tem custo. Há duas semanas, o chanceler polonês sugeriu que a Otan deveria exercer pressão militar sobre o exclave russo de Kaliningrado, entre seu país e a Lituânia. Além de inútil para tirar o foco russo da Ucrânia, a ideia serviu para Putin sacar sua carta nuclear, lembrando que qualquer ação contra o território será respondida até com armas atômicas. É improvável que isso ocorra, mas a tensão precisa ser contida para minimizar o risco de entrechoques acidentais que possam levar a cenários mais sombrios. editoriais@grupofolha.com.br
Crise entre R�ssia e Europa entra em nova e perigosa etapa
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