Com a expansão da União Europeia ao leste em 2004, abriu-se o caminho para uma integração maior, circulação livre de pessoas e bens e para a consolidação da promessa do projeto europeu —iniciado em 1951, após a Segunda Guerra Mundial, e formalizado em 1992. As brutais imagens registradas na fronteira entre Marrocos e Ceuta, exclave espanhol no lado africano do estreito de Gibraltar, enfraquecem aquele sonho, que a cada dia torna-se mais quimérico. Nada menos do que 72 mil pessoas se lançaram sobre cercas e pelo mar para tentar alcançar o território europeu, tendo aparentemente interpretado como um sinal verde a deliberação da Suprema Corte em Madri que vetou extradições imediatas. Marrocos foi acusado de afrouxar os controles fronteiriços, e a oposição à direita na Espanha apontou o dedo às políticas liberais no setor do premiê socialista Pedro Sánchez —uma estrela do progressismo global. Acuado, ele ordenou a expulsão dos migrantes. Debelou a crise, mas 75 pessoas morreram, a maioria afogada. E o problema persiste. Segundo a UE, entre 2022 e 2026, a força de trabalho imigrante no continente subiu de 9% para 14%, no entanto ela responde por metade dos novos postos. São empregos que o europeu médio já não quer. Além disso, faltam trabalhadores: com 1,34 filho por mulher, a taxa de natalidade é a menor da história. Nesta terça (4), o bloco se reuniu para discutir o Pacto de Imigração, firmado no mês passado, que prevê mais controle fronteiriço e rapidez nas extradições. A medida que se insinua é a adoção de um esquema já testado pelo Reino Unido com Ruanda e em acordo entre Itália e Albânia: a criação de centros fora da UE em que estrangeiros com permanência rejeitada seriam retidos até serem repatriados. A ideia, que tem apoio de 19 dos 27 integrantes do bloco, suscita questões legítimas sobre detenção, fiscalização, acesso à Justiça e respeito aos direitos humanos. Oportunismo também se faz presente, com a Itália da direitista Giorgia Meloni suspendendo a livre circulação do chamado Espaço Schengen —formado por 29 países europeus que aboliram controles sistemáticos de pessoas nas fronteiras internas. Adicionando combustível à fogueira da direita, a crise veio dias após um radical islâmico descendente de imigrantes perpetrar um ataque terrorista na parada LGBT em Berlim. Pressionada, a Europa recorre a muros e soldados, sem saber quem irá trabalhar dentro de suas paredes. editoriais@grupofolha.com.br
Crise com imigrantes em Ceuta amea�a projeto europeu
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