Criadora do Grana Preta ensina finan�as com abordagem afro: 'Ningu�m sai ileso da pobreza'

Criadora do Grana Preta ensina finan�as com abordagem afro: 'Ningu�m sai ileso da pobreza'

Para Amanda Dias, 33, aprender a lidar com dinheiro também pode ser um exercício de reconexão com as próprias origens. Fundadora do Grana Preta, a baiana de Valença criou um programa de educação financeira com abordagem "afrorreferenciada", voltado a pessoas de baixa renda e a micro e pequenos empreendedores. Amanda afirma que a cultura afrobrasileira já carrega, em sua origem, muitos dos princípios discutidos pela educação financeira. Foi a partir dessa percepção que surgiu a ideia de ensinar gestão do dinheiro e empreendedorismo de uma maneira mais próxima da realidade do seu público. "Temos uma cultura muito moldada pelo Ocidente e pelo modelo de desenvolvimento capitalista, pautada na exploração de recursos naturais e na desigualdade econômica. Tem muita gente que acumula mais do que o suficiente para 30 gerações, enquanto outras pessoas não conseguem ter o suficiente para comer", afirma Dias. "A cultura iorubá diz que prosperidade é ter equilíbrio no uso dos recursos para que todo mundo viva bem. Prosperidade é viver bem", explica. Além do programa, Amanda produz conteúdo sobre educação financeira para o Spotify e o YouTube. Em 2021, foi uma das vencedoras do Shark Tank Brasil: Versão Creators. Ela contou para a Folha como surgiu a iniciativa e de que forma suas origens influenciaram a criação do projeto. Eu venho de uma realidade de escassez. Faço parte da primeira geração da minha família que teve uma infância sem trabalho infantil. A minha avó era marisqueira e foi empregada doméstica desde criança, aos nove anos de idade. Minha mãe também trabalhou durante muito tempo na área administrativa de um supermercado, em um distrito distante da minha cidade. O meu pai trabalhava durante o dia em uma fábrica de tecidos e de noite em um barzinho que funcionava ao lado da minha casa. Esse bar foi criado pelo meu pai quando ele era bem mais jovem. A minha avó também fazia moqueca para vender lá. Eu sempre via meu pai com um caderninho fazendo contas. A gente ficava no bar enquanto ele atendia a mesa e ensinava o dever de casa para a gente. Acompanhávamos essa dinâmica financeira, o fluxo de caixa e o que ele fazia ali no caderno. A minha mãe, inclusive, tinha a mania de grampear as notas fiscais das compras. Eu cresci vendo esses hábitos e aprendendo sobre como gerir o dinheiro diante de uma situação de escassez. Vi essa questão do empreendedorismo de muito perto, cresci com os meus pais se movimentando muito para conseguir 'fechar as contas'. Essa dinâmica toda influenciou a minha vida e a do meu irmão. A gente costuma dizer que ninguém sai ileso da pobreza. Quando a gente vem de uma família de baixa renda, negra, do interior do estado e ainda do Nordeste, uma região que tem uma condição um pouco mais vulnerável em relação à distribuição de riqueza do país, fica claro que esse projeto de ascensão social da minha família não começa e termina na mesma geração. Ele vem da minha avó, passa pelos meus pais e depois chega em mim. *galeria Quando entrei na faculdade de jornalismo, em 2012, me interessei pela cobertura de economia, porque eu entendia que aquilo influenciava demais a sociedade como um todo. Então, em 2018, criei o Grana Preta para escoar esse meu lado crítico e político. A princípio era uma página no Instagram onde eu compartilhava as minhas análises jornalísticas sobre dinheiro, economia e finanças. Nesse processo de entender o que o público precisava e queria, percebi que as pessoas me provocavam muito a criar um curso de gestão financeira, justamente porque a maioria do meu público não teve acesso nenhum à educação financeira. Então eu fui buscando outras formações. Primeiro me formei como consultora financeira. Depois fiz uma segunda graduação em gestão financeira e agora estou em um MBA de economia comportamental e finanças. De 2018 a 2019, eu passei por uma incubadora de negócios sociais, o Pense Grande. É um processo que instiga você a pensar em fontes de remuneração dentro do seu projeto social, porque a ideia é entrar como um projeto social e sair como um negócio de impacto. Foi lá que eu aprendi o que era negócio de impacto social e que era possível ter uma empresa que gerasse recursos suficientes para que eu pudesse viver daquilo. Fui me moldando dentro daquilo que eu já gostava de fazer e do que o público vinha sinalizando que era necessário. Nesses cursos eu percebi que muita coisa que aprendia sobre mentalidade financeira eu já tinha visto em outros lugares. Sou de religião de matriz africana há oito anos. Dentro do Candomblé eu tive muito contato com a cultura iorubá. O conceito de prosperidade na filosofia iorubá é completamente diferente daquilo que aprendemos. É uma filosofia voltada para o bem-estar comunitário e para a circularidade desses recursos. E isso vai para além dos recursos materiais, também transcende para as relações. Através dessa educação financeira que é "afroreferrenciada", já que eu puxo muito da ancestralidade brasileira, eu trago exemplos da nossa própria história para tratar de economia e de finanças. Muito do que a gente pensa e sente em relação ao dinheiro vem da cultura e da forma como fomos ensinados a enxergar o dinheiro. Então, introduzir uma outra perspectiva ajuda pessoas que não se identificam tanto com os números a entender que gestão financeira também é para elas. Eu bebo dessa fonte para ensinar como fazer dinheiro na prática, como empreender e se organizar financeiramente para abrir um negócio. Através da educação financeira é possível ter mais possibilidades de escolha. Ensino educação financeira porque eu vi o impacto disso na minha família. Quem tem pouco precisa ter inteligência financeira. É vital para que a gente consiga fazer alguma coisa da vida que não seja só pagar conta. Nesse mundo, muita gente desistiu de sonhar. Elas falam que não vão conseguir se aposentar, comprar um imóvel, então vivem do jeito que dá. O meu propósito de ensinar educação financeira é justamente que a gente consiga pelo menos realizar sonhos com o fruto do nosso trabalho: reativar a possibilidade de projetar um futuro e de desejar uma vida longa para realizá-los. A Causa do Ano 'Educação Financeira Transforma’ conta com o apoio do IBS (Instituto Brasil Solidário).

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