O quadrinista Craig Thompson foi celebrado e premiado quando lançou a história em quadrinhos autobiográfica "Retalhos", em 2003, aos 28 anos. Criado por pais evangélicos do interior do estado do Wisconsin, nos Estados Unidos, ele viu sua primeira obra longa se tornar fenômeno de vendas, publicada em vários países, ao retratar a descoberta de seu primeiro amor e seu empenho em se afastar dos dogmas de sua infância. Sua segunda HQ só saiu em 2011 e a recepção não foi a mesma. A poética "Habibi" foi celebrada por seus desenhos, mas também acusada de apropriação cultural e racismo ao narrar a história de dois jovens escravizados em um país árabe fictício e fantasioso. Após publicar o infantil "Space Dumplins", ele se tornou alvo de fúria nas redes sociais ao anunciar seu terceiro quadrinho adulto longo, "Raízes de Ginseng". Publicado em fascículos entre 2019 e 2024 e transformado em livro em 2025, trata-se de um retorno às suas memórias de infância na pequena cidade de Marathon como membro de uma família fundamentalista, somado a uma investida documental sobre o plantio de raízes de ginseng, típicas da China e da Coreia do Sul. "Comecei a receber ameaças de morte nas minhas redes sociais", afirma Thompson. "Minha editora abandonou o projeto. E passei pelo menos seis meses sem escrever nem desenhar. Mas foi a turnê de lançamento [de uma das edições avulsas] do quadrinho e minha viagem à Coreia do Sul que finalmente me deram forças para levar o projeto até o fim. Os leitores coreanos estavam empolgados com a ideia de uma história em quadrinhos sobre o ginseng e insistiram que eu precisava incluir a Coreia na narrativa. O mesmo aconteceu na China." O vínculo entre a infância de Thompson e a indústria do ginseng diz respeito às atividades dele durante as férias escolares. Ele e seus irmãos mais novos trabalhavam no cultivo da planta. Segundo o autor, colher ginseng era um trabalho de verão para ganhar dinheiro e comprar quadrinhos. "Nunca parei para pensar na planta em si ou em sua importância cultural para a medicina chinesa. Fazer este livro me deu a oportunidade de corrigir essa omissão e dedicar tempo a conhecer a cultura que atribui tanto valor a essa raiz." Ele defende a obra das acusações de apropriação cultural: "E quanto aos lugares em que a nossa própria cultura se sobrepõe a uma cultura que não é a nossa? Afinal, essa é uma realidade cada vez mais presente em um mundo globalizado. E foi exatamente essa a minha experiência ao crescer em uma cidade pequena e isolada, com apenas 1.200 habitantes, que, por acaso, era a maior produtora de ginseng americano do mundo". Autoproclamada capital do ginseng nos Estados Unidos, Marathon produz 95% da variedade conhecida como ginseng americano. Parte do livro de Thompson é centrada na relação da cidade com a planta. Mostra a chegada da planta à região e apresenta toda a economia que gira em torno dela. O autor retrata sua rotina colhendo ginseng na infância e também fala de religião e cultura. Ele apresenta as práticas e interpretações distintas em torno da planta nos Estados Unidos, na Coreia do Sul e na China. O resultado é um calhamaço de 448 páginas em preto, branco, cinza e vermelho, desenhado em nanquim, que discorre sobre família, fé, meio ambiente, política, tradição e dinheiro. "É melhor trabalhar com memórias autobiográficas ou ficção? Qual das duas é, em última análise, mais fiel à verdade?", questiona o autor sobre as reflexões que vieram à sua mente enquanto produzia a HQ. "É difícil dizer. Acredito que a verdade é mais estranha do que a ficção e que os dramas da vida real são mais interessantes do que a fantasia ou a imaginação." "Não estou tentando escrever tanto sobre mim mesmo, e sim sobre temas universais com os quais todos possam se identificar. Em 'Retalhos', isso inclui o primeiro amor, as lembranças da infância e as dinâmicas familiares. Em "Raízes de Ginseng", acrescentam-se a relação com o trabalho e questões globais mais amplas, como a globalização, a agricultura, a classe social, a imigração, a busca por um lugar para chamar de lar." Para as passagens documentais do livro, Thompson entrevistou cerca de 80 pessoas. Ele teve como mentor informal o amigo e também quadrinista Joe Sacco, expoente do jornalismo em quadrinhos e autor do clássico "Palestina". "Aprendi com Joe Sacco a importância da precisão nos detalhes", conta Thompson. "Às vezes, eu lia um livro inteiro só para embasar um único quadrinho de 'Raízes de Ginseng'. Pesquisar tem seu próprio prazer: a gente acaba se perdendo em todos aqueles caminhos paralelos que vão surgindo. Mas a pesquisa também é uma forma sofisticada de procrastinação." "Por isso, muitas vezes eu precisava me conter para não ficar tentando descobrir todos os detalhes sobre a precisão dos processos judiciais movidos por trabalhadores rurais contra fabricantes de pesticidas e fungicidas, quando, na verdade, só precisava desenhar uma página do livro." Os desenhos e designs de páginas de "Raízes de Ginseng" chamaram a atenção dos críticos. O visual da obra impressiona ainda mais pelo fato de Thompson ter sido diagnosticado com artrite e contratura de Dupuytren, doença que resulta no endurecimento progressivo das mãos. Ele retrata parte desse drama no livro, assim como o tratamento com medicamentos feitos com ginseng. "Infelizmente, minhas mãos estão muito piores do que estavam há oito anos, quando comecei a desenhar 'Raízes de Ginseng'", ele conta. "Mas não acho que seja o desenho que esteja contribuindo para a piora. É algo puramente genético, uma forma anormalmente agressiva da doença. O desenho não parece ser tão afetado quanto todas as outras coisas que faço. Estou dando às minhas mãos mais descanso do que dava há um ou dois anos."
Craig Thompson mescla biografia e document�rio em HQ sobre cultivo de ginseng
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