Representantes de quase 200 países estão reunidos na Armênia para enfrentar um problema urgente: o mundo está aquém do necessário para cumprir os compromissos globais de proteção da vida silvestre e dos ecossistemas. Na edição deste ano da convenção das Nações Unidas sobre biodiversidade, a COP17, os diplomatas devem discutir, ao longo de duas semanas, o não cumprimento de um acordo global histórico firmado em 2022 e o que pode ser feito para corrigir o rumo. Naquele ano, na COP15, os países se comprometeram com um acordo histórico, conhecido como Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, que estabeleceu a missão de deter e reverter a perda de biodiversidade por meio do cumprimento de 23 metas até 2030. A mais celebrada foi o compromisso de proteger 30% das terras, águas continentais e oceanos do planeta, conhecido como 30x30. Os países também prometeram tornar a agricultura sustentável e pôr fim à exploração excessiva de espécies silvestres. Mas, a menos que acelerem significativamente suas ações, os objetivos não serão alcançados até 2030, segundo um relatório divulgado na quinta-feira (15) pelo órgão responsável por supervisionar o tratado. "A natureza não prosperará apenas com boas intenções", disse António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas em fim de mandato, durante uma entrevista coletiva. Segundo ele, houve algum progresso. Quase 90% dos países, por exemplo, têm metas nacionais alinhadas às metas globais. Mas, afirmou, "estamos longe do necessário". Com guerras em curso, alertas crescentes sobre a inteligência artificial e o enfraquecimento da cooperação internacional, o momento e o cenário político não são favoráveis. Mas as consequências da inação continuam existindo. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas À medida que os seres humanos transformam os solos, os oceanos e a atmosfera da Terra, a biodiversidade do planeta diminui em um ritmo sem precedentes na história humana. De plantas e insetos a baleias e grandes primatas, as espécies sofrem com a perda de habitat, a exploração excessiva, a mudança climática, as espécies invasoras e a poluição. A degradação dos ecossistemas, dizem os cientistas, também compromete sua capacidade de fornecer água limpa e alimentos em abundância às pessoas. Ações insuficientes Embora o relatório tenha evitado apontar países específicos, observou que as nações da África, da Europa Ocidental, da América Latina e da Ásia tinham maior probabilidade de apresentar seus planos do que as do Leste Europeu, do Caribe e das ilhas do Pacífico. De modo geral, as maiores lacunas estão nas metas relacionadas à interação entre a natureza e os sistemas econômicos, como o compromisso de reduzir subsídios prejudiciais à biodiversidade e ampliar os incentivos à conservação e à sustentabilidade. Os números são enormes. Em 2023, dado mais recente disponível, US$ 2,4 trilhões (cerca de R$ 12,15 trilhões, na cotaçã atual) em recursos públicos foram destinados a atividades prejudiciais ao meio ambiente, segundo as Nações Unidas. Especialistas afirmam que redirecionar esse dinheiro liberaria o capital tão necessário para financiar ações de conservação e ajudaria os setores econômicos a operar de maneira mais sustentável. No entanto, apenas 39% dos países chegaram a elaborar planos para identificar seus subsídios nocivos à natureza —uma obrigação cujo prazo deveria ter sido cumprido até 2025. A principal meta, a de proteger 30% do planeta até 2030, também está atrasada, segundo o relatório. Grupos conservacionistas e acadêmicos afirmam que ela ainda pode ser alcançada. Uma análise da Campaign for Nature, grupo de defesa ambiental, constatou que as propostas atuais, caso sejam implementadas, elevariam a proporção de terras e águas continentais protegidas para cerca de 27%. Para os oceanos, porém, o índice chegaria a apenas cerca de 13%. E os ecólogos ressaltam que o percentual, por si só, não basta: o local onde essas áreas estão situadas é igualmente importante. Defensores da causa e especialistas em políticas públicas reconheceram que o processo da ONU pode parecer ineficiente e difícil de fazer cumprir. Mas disseram que não há uma forma melhor de tentar promover grandes mudanças que ultrapassem as fronteiras nacionais. EUA tentam influenciar negociações Além do Vaticano, os Estados Unidos são o único país que não faz parte do tratado global sobre biodiversidade. Ainda assim, costumam enviar uma delegação numerosa e exercer influência nos bastidores. O Departamento de Estado não respondeu a uma pergunta sobre o tamanho da delegação americana em Yerevan, mas os registros de inscrição indicam cerca de 12 pessoas, em comparação com mais de 35 em encontros anteriores. Em nota, o Departamento de Estado afirmou que os delegados iriam "promover os interesses americanos em iniciativas voluntárias e responsáveis de conservação que impulsionem o crescimento econômico". Ao tomar posse em 2025, o presidente Donald Trump cancelou as iniciativas do governo Biden para conservar 30% do território dos Estados Unidos, classificadas pelos opositores como uma apropriação de terras. Alguns representantes estaduais, indígenas e locais estão viajando para Yerevan, com destaque para os da Califórnia, reconhecida como um hotspot de biodiversidade global e que mantém sua própria iniciativa 30x30. "A Califórnia está mais empenhada do que nunca em proteger e preservar nossa biodiversidade e em apoiar outros ao redor do mundo", disse Wade Crowfoot, secretário estadual de Recursos Naturais. A questão de como financiar as ações de conservação está sempre entre as mais espinhosas nesses encontros. Os países com maior riqueza em biodiversidade tendem a ter menos recursos financeiros. Muitas vezes, eles não veem com bons olhos países mais ricos dizendo-lhes para não explorar seus próprios recursos —sobretudo porque, em muitos casos, essas nações enriqueceram fazendo exatamente isso. Segundo uma análise do Paulson Institute e de outras organizações, a diferença entre o que os países gastam para proteger a natureza e o montante necessário é de cerca de US$ 1,3 trilhão (R$ 6,5 trilhões) por ano.
C�pula na Arm�nia cobra a��o ap�s mundo falhar na prote��o da natureza
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