Quando comecei a correr, há quase 20 anos, lembro-me bem da sensação de liberdade que esse esporte me deu. Logo me inscrevi para a primeira prova de 5 km: foi uma Fila Night Run. O conceito era uma novidade, pelo menos para mim. Como o nome diz, o percurso era à noite. Nem me lembro que horas eram e não me importava. Era outra época. O Rio de Janeiro era muito mais seguro, e, depois de aproveitar a vista do mar ao longo do percurso, voltei tranquilamente para casa. Homens e mulheres, juntos. No mês passado, uma grande marca esportiva promoveu aqui em Londres uma dessas corridas noturnas e, apesar de a participação masculina não ser proibida, o foco era as mulheres. A ideia era chamar a atenção para as dificuldades que enfrentamos ao corrermos à noite e promover um ambiente seguro e inclusivo. Há outras empresas fazendo o mesmo. As imagens aéreas da prova na capital londrina são, de fato, impressionantes: a pista de um aeroporto foi fechada e serviu de rota para as cerca de 5.000 mulheres. A iniciativa se repete em outras seis cidades pelo mundo –Los Angeles, Cidade do México, Xangai, Mumbai, Manila e Sydney. Uma das frases da campanha diz que é um convite para que elas "retomem a noite para si." Mas será que vão mesmo? Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Pesquisas mostram, repetidamente, que a maioria das mulheres se sente insegura ao praticar corrida ao anoitecer. Mudam os hábitos –e não usar fones de ouvido é o mais leve deles– ou pior, deixam de fazer atividade física. Mas nem precisa ler um estudo. Se perguntar para qualquer corredora que você conheça, ela vai ter uma história de assédio, medo e insegurança para contar. Eu tenho algumas. Aqui na Inglaterra, com o inverno chegando, é ainda pior. Nesse momento, amanhece por volta das 7h e antes das 17h já está escuro. Ou seja, quem trabalha durante o dia e quer correr na rua provavelmente vai fazê-lo na escuridão. Toda a minha admiração por aquelas que participaram deste evento, quase um protesto pela liberdade de fazer um esporte que é para ser tão simples e natural. Pena que tenham que mostrar o óbvio –como nosso direito de ir e vir é limitado. Mas, como uma mulher que adora fazer exercício ao ar livre, confesso que corridas com esse propósito me causam incômodo. Não me leve a mal. Acredito que a intenção é boa, assim como qualquer iniciativa de promover o esporte. Mas o quanto marcas esportivas realmente se importam e o quanto é estratégia de mercado? Será que essa causa chega até os homens, já que estão praticamente excluídos da conversa? O foco deveria ser criar uma experiência que nos empodere ou se preocupar com a origem das questões que fazem com que ela seja sequer necessária? Qual o sentido de nos proporcionar uma noite incrível quando nas outras 364 do ano a realidade é tão diferente? Colocar mulheres em um cercadinho para correr é o mesmo que as confinar em vagões de metrô e trem exclusivos. Nós viramos o problema. Marcas e governos poderiam se unir e, em vez de marketing, investir dinheiro também em campanhas de conscientização e de endurecimento de leis que punem assediadores e agressores. Meu filho é um bebê, mas pode ter certeza: vou ensiná-lo a nunca fazer uma mulher se sentir acuada. Em vez de ter que proteger e cercear as meninas, importante mesmo é educar os meninos. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Corrida noturna para mulheres � boa inten��o ou marketing?
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