Começa nesta segunda-feira (5) o julgamento de dez torcedores do Corinthians acusados de matar dois palmeirenses em uma briga de torcida que marcou o futebol de São Paulo. O caso de março de 2012, que ficou conhecido como Batalha da avenida Inajar de Souza, segue presente em ciclos de vingança e disputas que envolvem a mesma via da zona norte da capital onde as mortes ocorreram. Por medida de segurança, a juíza responsável proibiu roupas de clubes e de torcidas organizadas no plenário do Fórum da Barra Funda, na zona oeste. O aviso foi despachado nas intimações de réus e testemunhas, que passam de 30. O júri está previsto para se estender até sexta-feira (9). Serão julgados: Antonio Alan Souza Silva, 48, o Donizete, então presidente dos Gaviões da Fiel; Mario Batista, 46, o Magoo; Reinaldo Gilberto Alves, 48, o Ade; Carlos Roberto de Britto Junior, 43, o Neguinho; Douglas de Deungaro, o Metaleiro; Rodrigo Reinaldet Daher, 48, o Capetinha; Rodrigo de Azevedo Lopes Fonseca, o Diguinho; Marcelo Eduardo Rodrigues Sales, 46, o Ninja; Wagner da Costa, 43, o BO; Mario José Carneiro Pieroni, 38. Metaleiro, Diguinho e BO também foram presidentes da torcida. Todos os envolvidos negaram, durante a investigação, ligação com os crimes e premeditação da briga. Eles são réus sob acusação dos homicídios de André Alves Lezo, 21, e Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, 19, ambos da Mancha Alvi Verde. A demora para o julgamento é atribuída a recursos das defesas, pedidos de laudos, análises de material apreendido e ao número de investigados. Para a Justiça, em decisão que levou os réus ao júri, todos "concorreram de qualquer forma para a prática dos delitos de homicídio e estavam, desde data incerta, associados para o fim específico de cometer crimes, sendo essa associação armada". O processo foi desmembrado: outros nove réus acusados de associação criminosa, todos palmeirenses, serão julgados ainda em data a ser definida. A avenida Inajar de Souza, que liga o Jardim Peri à ponte da Freguesia do Ó, ainda continua como foco de disputa entre as duas maiores torcidas organizadas da capital, Gaviões e Mancha. A via segue vendo marchas organizadas de torcedores. Em dias de clássico entre os times, os integrantes buscam o local como forma de marcar território e demonstrar força ao conseguir deslocar apoiadores à região. "A Inajar de Souza foi uma tragédia que permanece na memória pela perda de vidas e pela dor das famílias", diz o delegado Cesar Saad, responsável pela Drade (Delegacia de Polícia de Repressão e Análise aos Delitos de Intolerância Esportiva), criada em 2014. "Mas as torcidas representam muito mais do que episódios de violência: têm história, identidade e um papel importante na festa do futebol", pondera. Briga de 500 pessoas A briga, que envolveu cerca de 500 pessoas, ocorreu por volta das 10h de 25 de março, mas começou a se formar meses antes. Ela seria uma retaliação pela morte do corintiano Douglas Karin da Silva, 27, que teve o corpo encontrado no rio Tietê na segunda-feira, 29 de agosto de 2011. Para a Polícia Civil, ali estava a faísca para um revide de grandes proporções. Ele veio seis meses depois. Um grupo de palmeirenses se reuniu, como de costume, na Inajar. Entre eles, os irmãos Lucas, André e Tiago Alves Lezo, que saíram de casa por volta das 9h. O ponto final deveria ser a rua Turiassu, onde fica o estádio do Palmeiras, de onde seguiriam a pé e escoltados até o Pacaembu, local do jogo. Segundo o inquérito, baseado na denúncia de uma testemunha protegida, corintianos se reuniram em vários pontos da cidade entre a noite de sábado e a madrugada de domingo e foram pegos por dois ônibus. Pela manhã, seguiram para a Inajar. Os membros da Mancha já estavam perto do fim da avenida, na altura da rua Antônio de Couros, quando foram surpreendidos, como descreve a investigação. Os alvinegros estavam com toucas feitas de meia-calça e municiados de barras de ferro, pedaços de madeira, fogos de artifício e bombas caseiras, segundo informações do processo, que tem 10 mil páginas. Os palmeirenses eram escoltados por duas viaturas do 18º Batalhão da PM. Um policial disse em depoimento que as torcidas trocaram xingamentos e ficaram frente a frente por alguns minutos. Os soldados nada puderam fazer e assistiram à briga em meio à fumaça dos fogos de artifício. O confronto foi breve, mas bastou para que André levasse diversos golpes de barra de ferro na cabeça e Vinícius também ficasse gravemente ferido. Levado ao Hospital da Vila Nova Cachoeirinha, André morreu na noite de domingo. Vinicius morreu na terça-feira (27), no Hospital São Camilo, na Pompeia. Na semana seguinte, vieram buscas e apreensões e pedidos de prisão, e Mancha e Gaviões foram proibidas de ir aos estádios com faixas, bandeiras, instrumentos ou vestes alusivas. A investigação culminou com a denúncia do Ministério Público, autor da acusação que começará a ser julgada nesta segunda. A defesa de Antonio Alan, Mário Batista e Reinaldo Gilberto disse que não comentaria o caso. Procurados entre a quinta-feira (1º) e a sexta-feira (2), os demais defensores não responderam aos contatos feitos por mensagem, email e ligações em telefones fixos presentes no site da OAB. A assessoria dos Gaviões disse na última semana que a instituição não irá se pronunciar. A reportagem procurou a presidência atual da Mancha Alvi Verde, que não respondeu às mensagens. Torcida única foi adotada em 2016 e segue vigente Os ciclos de vingança, que antecederam a Inajar e se intensificaram depois do caso, culminaram, em 2016, com a adoção das torcidas únicas nos estádios em dia de clássico no estado. Dez anos depois, o modelo segue vigente. Naquele ano, José Silva Batista de Carvalho, 53, que mal dava atenção a futebol, foi vítima de bala perdida em briga entre corintianos e palmeirenses em São Miguel Paulista, na zona leste. Outras brigas se sucederam, como a ocorrida na avenida do Estado em fevereiro de 2023, quando um ônibus dos Gaviões foi atacado por torcedores palmeirenses. Nos últimos anos, casos de repercussão nos mesmos moldes não se repetiram. O delegado Saad vê hoje um avanço de tecnologia, legislação e diálogo entre poder público, forças de segurança, clubes e torcidas. "Temos mais instrumentos para prevenir conflitos e construir uma cultura de paz", afirmou. "É esse caminho que precisamos fortalecer, para que a paixão pelo futebol se expresse em apoio, convivência e festa. Episódios como o da Inajar não podem ser aceitos nem tratados como parte natural da rivalidade", acrescentou.
Corintianos acusados de matar dois palmeirenses na Batalha da Inajar, em 2012, come�am a ser julgados
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