Contra o que dizem os psicanalistas, durmo abra�ada a minha filha

Contra o que dizem os psicanalistas, durmo abra�ada a minha filha

Existe esse momento da noite, quando todas as luzes e os sons e as demandas já foram encerrados (ou pelo menos assim teatralizamos), em que me deito na cama, minha filha automaticamente me abraça, e eu só consigo pensar que atravessei aquele dia, talvez a vida toda, esperando por isso. Ela ainda tem oito anos. Até os dez posso ter a certeza de que nos abraçaremos na hora de dormir? Até os 13? Até qual idade ela vai querer adormecer agarrada a mim? É necessário sugar dessa cena um substrato de amor suficiente para que eu sobreviva quando sua adolescência chegar.Hoje penso na minha juventude e na minha existência como adulta antes de me tornar mãe. Quantas filas, pistas, listas, salas, testes, estradas e aeroportos. Parados, lentos, complicados. Eu queria tantas coisas. Mas no centro delas, no topo, na essência, estava esse momento em que me deito, enlaço a minha filha e então podemos adormecer. Toda a urgência, toda a expectativa, toda a paciência, toda a espera era também, e sobretudo, para conhecê-la e abraçá-la. Eu que ainda quero tanto, quero mesmo é terminar o dia de mãos dadas com ela, com seu pijama de capivaras e lhamas, com minha rinite desesperada porque um chumaço do seu cabelo fininho está entrando no meu nariz. Quero acalmar meu cérebro com sua respiração quentinha, cada vez mais apaziguada. Me sinto tão quebrada, com tanta dificuldade de amar um homem, como se eu estivesse em um relacionamento sério apenas com o meu cinismo (a sorte é que é uma relação aberta). Já a minha filha amo como se isso fosse mais velho do que eu. Anterior a mim. Posterior a mim. Tão óbvio, fácil, descomedido. E melhor e maior do que minha própria capacidade. Dormir abraçado a um filho, para mim, é a experiência mais forte, revigorante e bonita da vida. Vale a pena viver, ter vivido, seguir vivendo. Abraçada à minha filha, antes de ela dormir, eu conjugo infinitamente o verbo "viver" e observo, já me desculpando pela breguice, como suas letras são imensas, preenchidas e coloridas. Então, com aquele bafinho de aparelho móvel —o melhor dos perfumes do planeta—, ela me conta algum mexerico da escola, pede que eu conte alguma "história bem verdadeira da minha infância", e em poucos minutos estamos sonhando. A completude que eu sinto e que sei que ela sente, dentro desse microcosmos com papel de parede de minidocinhos, é sim tangível, e estou certa de que isso a fortalece. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A individualidade, a diferenciação psíquica, os limites e a vida conjugal importam. Nunca os deixei de lado. Aliás, deixei sim. Eu tenho toda uma vida em meu quarto, que fica ao lado do quarto da minha filha. Ela tem toda uma vida em seu quarto, com seus amigos, leituras, bonecas, músicas, diários e silêncios. No entanto, por pelo menos uma hora, contra o que dizem os psicanalistas, aceito o convite e adormeço em sua cama (às vezes, capoto e só vou para o meu quarto de madrugada). A fase fálica, a castração simbólica, a auto-organização e a cena primária importam. Mas eu não acredito em um psicanalista constituído apenas de incontáveis horas de leitura e trabalho. É preciso que seu corpo, seu coração, sua mente —e até mesmo sua clínica— sejam marcados (dilacerados) pelas belezas e pela força da vida acontecendo. E nada é mais vida acontecendo do que uma criança abraçada a você, feliz, segura, amada, antes de dormir e, talvez por isso, para o resto da vida. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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