Contra autocratas sem limites, democracias sem fronteiras

Contra autocratas sem limites, democracias sem fronteiras

Nesta terça-feira (15), data em que se celebra o Dia Internacional da Democracia, as razões para comemorar são escassas, pois a qualidade do Estado de Direito vem recuando de forma acelerada em todo o planeta. Segundo o WJP Rule of Law Index, 68% dos países sofreram declínio em 2025, um salto expressivo em relação aos já alarmantes 57% do ano anterior. O relatório do V-Dem, por sua vez, mostra um mundo em que, pela segunda vez consecutiva, há mais autocracias do que democracias, sendo 92 regimes autocráticos contra 87 democráticos. Quase três quartos da população mundial vive sob autocracias, e apenas 7%, em democracias liberais.É neste cenário que o Brasil realiza mais um processo eleitoral decisivo para a sua democracia. Internamente, a primeira eleição após a tentativa de golpe bolsonarista impõe à sociedade brasileira a necessidade de reafirmar seu compromisso com o Estado de Direito e o rechaço inequívoco frente a qualquer ensaio de ruptura democrática. Zelar pela integridade do processo, garantir a liberdade do voto e reconhecer plenamente os resultados expressos nas urnas são fatores imprescindíveis para seguirmos cicatrizando as feridas abertas pela intentona recente. O pleito de 2026 acontece em um ambiente internacional em que ingerências estrangeiras sobre processos democráticos se tornam mais frequentes. O Brasil já sente os efeitos concretos desse fenômeno, tornando a defesa da soberania nacional um compromisso fundamental para este e os próximos anos. A ascensão de autocratas não ameaça apenas as democracias de seus próprios países. Além de se inspirarem mutuamente e compartilharem estratégias, narrativas e recursos, essas lideranças vêm demonstrando crescente disposição para projetar poder para além de suas fronteiras ao interferir em democracias alheias. Para muitos deles, soberanas são somente suas ambições. Embora ingerências dessa natureza não sejam novidade, há algo novo na escala, velocidade e sofisticação com que ocorrem. Estamos diante de uma transformação estrutural do ambiente democrático internacional. E, se forças antidemocráticas operam de forma transnacional, o campo democrático também vem buscando cruzar fronteiras, compartilhando estratégias para enfrentar processos de autocratização. O Brasil tem sido uma referência importante nesse esforço, tendo se tornado um farol de resiliência democrática e uma fonte de inspiração global. Isso não significa, porém, que o caso brasileiro seja exemplar, muito menos que tenhamos logrado um franco triunfo da democracia. Ao contrário: seguimos enfrentando agudas crises democráticas e temos a responsabilidade de transformar o que já aprendemos em capacidade coletiva permanente de reimaginação e resistência, no Brasil e para além dele. O Dia Internacional da Democracia talvez nunca tenha sido tão relevante. No Brasil de 2026, a defesa da democracia passa a ser também indissociável da proteção de duas soberanias inseparáveis: a das urnas e a nacional. Para um horizonte democrático, essa deve ser a nossa fronteira. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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