Contra AfD, campanhas usam de voto estrat�gico a 'Amar �...' na Alemanha

Contra AfD, campanhas usam de voto estrat�gico a 'Amar �...' na Alemanha

A perspectiva de a extrema direita alcançar o poder pela primeira vez na Alemanha pós-guerra provoca uma avalanche de campanhas no país contra a AfD (Alternativa para a Alemanha). Segundo pesquisas, a sigla deve obter a maior bancada em Saxônia-Anhalt, em 6 de setembro, e ficar próxima de eleger um governador, fato inédito na história moderna do país. O esforço reúne de ativistas a personalidades famosas, como a atriz Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda", "Zona de Interesse"), esportistas, instituições científicas e até a Igreja Evangélica, um dos muitos alvos do partido no polêmico plano de governo de Ulrich Siegmund, seu principal representante no estado. "Caso a AfD… indique um ministro-presidente [governador], isso teria graves consequências sociais e econômicas, não apenas para Saxônia-Anhalt, mas muito além", afirmou em comunicado uma iniciativa criada especificamente para a eleição chamada "Mais do que nos separa" (Mehr als uns trennt, em alemão). A tradução literal funciona, mas perde o sentido mais profundo do original. Para um alemão, o nome da associação remete diretamente à frase "Une-nos mais do que nos separa", de raízes históricas e muito utilizada por políticos durante o processo de reunificação, nos anos 1980 e 90. Saxônia-Anhalt é um dos estados do leste, da ex-Alemanha Oriental, com índices sociais e econômicos ainda distantes dos do oeste e, também por isso, onde prospera a plataforma populista, nacionalista e xenófoba da AfD. As intenções de voto refletem isso. O último levantamento aponta a legenda com 43%, contra 23% da CDU, do primeiro-ministro, Friedrich Merz, e 13% do partido A Esquerda. Se a vitória parece certa, limitar o tamanho dela é o que movimenta a sociedade civil neste momento. Em janeiro, o grupo progressista Campaq iniciou a campanha "No AfD" para arrecadar um montante equivalente aos € 2,5 milhões (R$ 14,8 milhões) que o partido informou ter separado para as eleições deste ano —além de Saxônia-Anhalt, lidera também em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e deve dobrar sua votação em Berlim. Graças a 75 mil doadores, uma cifra de € 3 milhões foi alcançada, sendo que metade do valor está sendo repassado para outras entidades ativistas. Ao menos € 620 mil estão sendo gastos diretamente em ações para pedir votos para os sociais-democratas do SPD e os Verdes. As duas legendas passaram os últimos meses lutando para superar a cláusula de barreira de 5%, que tira do Parlamento quem não alcança esse patamar de votação nas urnas. O esforço já transparece nas pesquisas: o SPD alcançou 7% nos últimos levantamentos, e os Verdes se estabilizaram em 5%. Segundo cálculo do jornal Die Zeit, que estudou 10 mil cenários possíveis para a eleição, a chance da AfD alcançar a maioria e indicar um governador cai de 71% para 13% se as duas siglas rivais alcançarem o mínimo necessário para compor a Casa em Magdeburgo, a capital do estado. Algo como a figura do voto útil da política brasileira, que o diretor do Campaq prefere chamar de estratégico. "Temos divergências significativas com o SPD e os Verdes", afirma Felix Kolb, cientista político que conduz o grupo apartidário desde 2008. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo "Mas as sondagens são claras, e esta eleição é importante demais para simplesmente deixarmos as coisas seguirem seu curso natural. Consideramos nossa responsabilidade tornar transparente os resultados que podem impedir um governo da AfD." Para observadores, trata-se de uma versão eleitoral e extrapolada do Brandmauer, o firewall, a recusa dos partidos democráticos em trabalhar com a AfD. O sistema é discutido há anos no país, devido ao crescimento orgânico do partido nas pesquisas. Em âmbito nacional, a AfD lidera com 28% das intenções contra 21% da CDU, uma quase inversão do resultado eleitoral que levou Merz ao poder no começo de 2025. Ao mesmo tempo, 64% dos alemães, segundo pesquisa publicada pela emissora pública ZDF, consideram negativo haver um governo conduzido pela legenda. É a esse sentimento majoritário que apela a campanha Mehr als uns trennt. Em redes sociais, a coleção "Amar é…", que ainda tem presença no mercado editorial alemão, virou base para uma série batizada como "Amar a pátria de verdade é…". Pátria, no caso, é outra tradução que não alcança o sentido do original "Heimat", que também tem conotação de lar. O termo foi cooptado e deturpado pelos nazistas, que o transformaram em argumento para "raça pura" e o Holocausto. Não por outro motivo, foi deixado de lado por boa parte dos políticos durante décadas e, nos últimos tempos, resgatado pela extrema direita. A campanha destaca trechos do programa de governo da AfD e os confronta com a realidade. Amar a pátria é chegar ao mar Mediterrâneo usando um documento de identificação simples, não um passaporte; o partido defende a saída do país da União Europeia. Ou não ter medo de ir a um hospital sem médicos e enfermeiros; a AfD quer apenas profissionais alemães na saúde, outro plano inexequível da legenda. Em diversas cidades, os cartazes da campanha foram vandalizados poucas horas após serem instalados. "O verdadeiro amor à pátria se prova nas urnas contra o sistema atual", responderam os militantes da sigla nas redes sociais. A iniciativa continua, com mais publicidade e uma caravana pelo estado.

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