São Paulo Entender as obras de Joan Miró (1893-1983) pode ser complexo. Muitas eram feitas de material incomum, como tampas de lata e pedaços de metal, com desenhos em formas estranhas e cores que representavam ou a guerra, ou a paz. A exposição "Miró: Mestre das Formas", com mais de cem obras do espanhol, busca servir como panorama do trabalho do artista, organizando o vocabulário errático de Miró em eixos temáticos. A mostra começa nesta sexta-feira (7) no MAB (Museu de Arte Brasileira), da Faap. Peça de "Álbum 19" (1961) da exposição "Miró: Mestre das Formas" - Joan Miró /Album 19 1961 Lithograph 51 x 66 cm À Folha, Roberto Souza Leão, CEO do Totex, instituto responsável pela exposição, detalha cinco obras expostas na mostra que são essenciais para entender o trabalho do artista. Entre elas está o quadro "Mulher e Cachorro Diante da Lua", de 1935, parte da fase sombria de Miró. Na linguagem do artista, mostra-se uma mulher em sofrimento, com marcas de tortura, língua de fora e olhar triste. Os elementos em vermelho representam o sangue. "Essa obra data de quase dez anos depois que Miró ficou conhecido mundialmente, mas ainda era uma fase de amadurecimento", afirma Leão. Miró estudou outros estilos no começo do século 20, em especial o fauvismo e o cubismo. O primeiro surgiu na França com a ideia de transmitir sensações por meio de cores fortes e pinceladas soltas. O segundo foi considerado vanguarda na Europa e tinha como maior expoente Pablo Picasso. Em "Mulher e Cachorro Diante da Lua", além de romper com dois movimentos consolidados para se ligar de forma mais intensa ao surrealismo, ele usou técnica de sobreposição. O método consiste em aplicar várias camadas de cor, tinta ou impressão umas sobre as outras. O resultado cria tonalidades diferentes, deixa áreas mais densas ou escuras, dá sensação de profundidade e acrescenta textura. "Era um período que ele dizia não ter inspiração para fazer coisas alegres. Até em obras coloridas mostram cenas tristes", diz Leão. Tanto a Guerra Civil Espanhola quanto a Segunda Guerra influenciaram o trabalho de Miró. "Mulher e cachorro diante da Lua" (1935) - Joan Miró/Fundació Joan Miró, Barcelona ©Successió Miró / AUTVIS, Brasil, 2026 Parte da série de litografias que compõem "Álbum 19" (1961) também está no MAB. A técnica consiste em desenhar a imagem com tinta sobre uma pedra lisa ou placa específica para servir de prensa. No caso do surrealista, isso era usado para trabalhar cores de forma separada. Além Exposição na Faap explica como artista catalão se aprofundou no surrealismo ao usar materiais incomuns em pinturas e esculturas disso, ele molhava o papel que seria a superfície da obra para criar ondulações e curvas. Outra forma de gravura explorada pelo espanhol consiste em usar chapa de metal e ácido. Nesse caso, a substância corroía a placa, que depois recebia tinta e era levada à prensa. Em "Álbum 19", o visitante pode observar a consolidação de uma linguagem particular de Miró. A essa altura, nos anos 1960, o artista já tinha estabelecido símbolos recorrentes em suas obras — como as mulheres, as estrelas, o céu, o Sol, os pássaros e os seres do mundo dos sonhos. "Quando Miró coloca mais de uma estrela, está se referindo ao céu. Quando ele coloca só uma, é Vênus, o símbolo do universo, do eterno", diz Leão. Depois, o artista apresenta "2 + 5=7" (1965). A obra transforma conceitos matemáticos em imagem. É composta por traços que correspondem aos números. A forma circular em azul e branco é interpretada como buraco negro que leva para a eternidade. Já o laranja ao fundo está associada ao cosmos. A área de esculturas da exposição demonstra de forma mais evidente outra faceta do artista: o reaproveitamento de materiais. Em "A Garota Fugindo" (1967), Miró desejava assassinar a pintura acadêmica, afirma Leão. Isso significa abandonar regras, mudar suportes e transformar objetos banais em arte. Usou pernas de manequim, peça de cerâmica, uma torneira quebrada. Os elementos foram combinados e fundidos em bronze. A torneira virou o coque do cabelo. A posição das pernas sugere movimento. Por mais que o bronze fosse material nobre, cobri-lo por tintas vermelha, azul e amarela demonstra a agressão de Miró ao valor material da obra. Na velhice, o artista usa o preto com intensidade no fundo das telas. Isso realça as cores primárias aplicadas por cima. Em "Mont- -roig 3" ele revisita símbolos que já havia criado. Os três fios de cabelo indicam uma mulher triste. As três estrelas levam a cena para o mundo dos sonhos, talvez para um pesadelo, diz Leão. A exposição teve a contribuição de fundações dedicadas ao artista, além de outras 14 coleções privadas. Também inclui seleção de 30 fotos de Miró em cenas do cotidiano, clicadas pelo fotógrafo Joaquim Gomis. Miró: Mestre das Formas MAB Faap - r. Alagoas, 903, Higienópolis, região central. Ter. a dom., das 9h às 20h. Estreia: sex. (7). Até 12/10. Ingr.: a partir de R$ 50 na bilheteria
Conhe�a cinco obras fundamentais para entender a arte Joan Mir� em nova mostra em SP
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