Reeleito neste domingo (25) numa virada histórica, o presidente Lula (PT) terá que enfrentar no quarto mandato um Congresso mais à direita do que nos três primeiros. O resultado, que havia sido projetado pelo Datafolha às 20h46, foi confirmado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) às 21h10. Na atual gestão, Lula já viveu dificuldades para aprovar projetos, viu parte das medidas provisórias expirar e vetos serem derrubados pelos parlamentares. O PL cresceu na Câmara e, principalmente, no Senado, e terá as maiores bancadas das duas Casas. Junto com o partido Novo, serão 131 deputados de 513 (25%) e 32 de 81 senadores (39%). Parte do centrão também está mais à direita, com deputados mais ideológicos eleitos por legendas como União Brasil, PP, Republicanos, PSD e Podemos. Acompanhe na Folha em tempo real a apuração do 2º turno Tamanho de bancada, porém, não implica automaticamente hegemonia. A tendência no Congresso é de acomodação de forças, e a governabilidade do presidente é, em grande parte, ditada pela capacidade de fazer alianças e concessões. A estratégia do governo será novamente dividir os partidos do centrão, atraindo-os para a base de sustentação com a oferta de ministérios e emendas parlamentares, atuar para ter aliados na presidência das duas Casas e contar, mais uma vez, com uma aliança com parte do STF (Supremo Tribunal Federal) para ajudar na governabilidade. O desafio para o petista começará logo no primeiro dia da nova legislatura. Em 1º de fevereiro, Câmara e Senado elegerão seus novos presidentes.O principal problema reside no Senado. O atual presidente, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), não é o nome dos sonhos do petista, mas Lula terá que atuar fortemente para reelegê-lo, sob risco de deixar o comando nas mãos da oposiç ão. Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) querem disputar a vaga com apoio da direita. Perder a presidência do Senado seria uma má notícia para o governo petista. O presidente da Casa possui o poder de definir os projetos que serão votados, abrir CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) e travar as indicações do presidente da República para tribunais, embaixadas, o Banco Central e agências reguladoras. A vitória de Marinho pode significar um bloqueio à possibilidade de Lula editar medidas provisórias (propostas que entram em vigor a partir de sua publicação e precisam ser votadas pelo Congresso em até 120 dias). O presidente do Senado comanda também o Congresso e, nessa condição, pode rejeitar sozinho a validade de uma MP. Ele decide também quando serão pautados os vetos presidenciais a projetos aprovados pelo Legislativo. Atualmente, há 112 aguardando análise, alguns desde o primeiro ano do mandato, embora a Constituição determine que sejam votados em 30 dias. Outra prerrogativa é indicar os responsáveis por negociar o Orçamento do governo. A relação de Alcolumbre com Lula é de altos e baixos. Ambos ficaram afastados após o senador articular nos bastidores a derrota do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF, mas reataram às vésperas da campanha eleitoral. Alcolumbre aposta na adesão dos partidos de esquerda, de centro (MDB e PSD) e em dissidências na direita para se reeleger, aproveitando que o voto é secreto. Parte dos senadores do PL, PP e Republicanos possui relação de amizade com ele, o que pode contar mais nessas eleições do que o posicionamento partidário. A reeleição de Alcolumbre facilitaria a governabilidade de Lula no Senado, mas não sem desafios. O governo teria de ter cuidado com cada projeto enviado, sob risco de derrota, e precisaria negociar muito antes de enviar indicados para cargos que exigem aprovação dos senadores. O presidente, além disso, dificilmente teria votos suficientes para aprovar mudanças na Constituição.Na Câmara, a situação é um pouco mais confortável. Hugo Motta (Republicanos-PB) se aproximou do presidente por causa da campanha e deve contar com apoio do PT para se reeleger. Ele já lançou um bloco com dez partidos do centrão e anunciou a adesão de PSB e PDT à sua candidatura. O PL vinha, até então, trabalhando contra. A convivência com Motta, no entanto, também é de altos e baixos. O presidente da Câmara chegou ao cargo com apoio do PT e do PL e fez acenos aos dois lados ao longo de sua gestão. Atuou para derrubar decretos do presidente e escolheu adversários para a relatoria de projetos importantes. Motta se reaproximou de Lula às vésperas da campanha eleitoral, mas o resultado deixou mágoas, segundo aliados. Ele queria eleger o pai, Nabor Wanderley (Republicanos), para o Senado, mas o petista fez campanha por Veneziano Vital do Rêgo (MDB) e João Azevêdo (PSB), que o derrotaram. O petista contou no atual governo com apoio de uma base mais fiel de esquerda e alianças com parte do centrão. Dos partidos de centro, MDB e PSD são os mais próximos do governo, com líderes que fizeram campanha para ele na eleição. Já União Brasil, Republicanos e PP são mais distantes, com alianças pontuais, e declararam apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. A composição da base aliada em 2027 dependerá das negociações que serão conduzidas por Lula e pelo ministro da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), José Guimarães, para a divisão dos ministérios, o que começará agora, com a transição para o quarto mandato. O QUE O CONGRESSO DEVE DISCUTIR EM 2027 Reforma do Judiciário Impeachment de ministros do STF Regulação da inteligência artificial Proibição das bets Redução da maioridade penal Projetos de ajuste fiscal A DEMOGRAFIA DO NOVO CONGRESSO Na Câmara, 59% dos eleitos são de partidos de direita, de acordo com o GPS Ideológico da Folha, enquanto 24% são de esquerda. A bancada feminina cresceu na Casa, mas as mulheres seguem minoria entre os parlamentares. Foram 109 eleitas entre os 513 deputados, uma alta em comparação às 90 de 2022. 48% da bancada feminina é de direita e 43% é de esquerda. Já o Senado, a partir de 2027, terá 64% dos seus integrantes alinhados à direita, 18,5% à esquerda e 16% ao centro. A bancada feminina será composta por 18 parlamentares, com 55,5% à direita e 33,4% à esquerda —o centro terá duas vagas. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Enquanto isso, o número de deputados eleitos que se declaram brancos subiu pela primeira vez desde 2014, quando o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) começou a coletar informações raciais dos candidatos. Foram eleitos este ano 374 brancos, ante 366 no pleito de 2022. A bancada indígena diminuiu, de quatro eleitos em 2022 para três agora, assim como a bancada negra. Já no Senado, nenhum dos 54 eleitos se declarou negro. 16 se identificaram perante a Justiça Eleitoral como pardos. No total de 81 senadores, a maioria se declara branca: 70,4%. Dos 513 deputados federais eleitos, 173 exercerão, a partir do ano que vem, o seu primeiro mandato na Câmara. Isso representa uma taxa de renovação de 33,72%. No Senado, 40 dos 54 senadores eleitos terão seu primeiro mandato, o que representa uma renovação de 74% das cadeiras em disputa.
Congresso � direita amea�a deixar Lula sem governabilidade, e Senado vira bunker antipetista
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