Professores e pesquisadores de universidades de todo o país intensificaram o engajamento na campanha eleitoral, com a iminência da vitória de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. É do jogo. Acadêmicos também são cidadãos e devem ter liberdade para manifestar suas preferências dentro e fora das instituições de ensino. A opção predominante é compreensível. Os anos Bolsonaro foram difíceis para as universidades brasileiras. Cortes do seu governo escassearam bolsas, concursos e recursos para custeio. O discurso do presidente e de seus correligionários também contribuiu para estigmatizar cientistas e provocar confusão sobre importantes consensos construídos, como no caso das vacinas.Saudosa da ditadura militar, a família Bolsonaro também evoca a memória de um período de perseguições que resultou em demissões sumárias, execuções e desaparecimentos. Tudo isso precisa ser levado em conta diante do que representa a eventual eleição de Flávio. No entanto, a legítima preocupação com o futuro do país tem levado muitos desses atores a incorporar o clima de vale-tudo que tomou conta a campanha petista nas últimas semanas. A proposta de alocação do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por exemplo, virou sinônimo automático de dilapidação orçamentária. Deveria ser objeto de maior atenção a intenção de Flávio em submeter a produção científica ao interesse de empresas, mortal para certas áreas do conhecimento que não operam a partir de uma lógica de mercado.Promessas falsamente atribuídas a deputados recém-eleitos pelo PL têm inundado as redes de profissionais da área, com perspectiva de grande impacto nas carreiras docentes da esfera federal. Mais graves ainda foram as conclusões precipitadas de que o lamentável incêndio no prédio da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) teria sido provocado deliberadamente por bolsonaristas, contra as principais evidências disponíveis até aqui. Não há dúvidas de que reacionários mais exaltados são capazes disso, como foram em diversos episódios da história do Brasil, inclusive recente. Mas o passo entre "não duvido" e "foram eles" foi rápido demais. Supostas novas ameaças a instituições também têm sido replicadas de maneira indiscriminada para reforçar o clima de intolerância.Mas, afinal, não vale qualquer coisa para derrotar essa direita que está aí? Ouso dizer que não. A comunidade acadêmica precisa agir com prudência diante da restauração bolsonarista que se avizinha. Por pior que seja o cenário, haverá um amanhã. Houve momentos bem mais delicados. E as universidades vão precisar ser ouvidas pela sociedade quando necessário —como precisaram no governo de Jair e certamente vão precisar no do filho. Com o peso de suas filiações institucionais, especialistas e historiadores renomados não deveriam atuar como profetas do apocalipse, ignorando nuances e misturando fatos com boatos ou pura especulação: os brasileiros têm autonomia para distinguir, e a crise de confiança tende a aumentar. Na melhor das hipóteses, qualquer governo medíocre que fizer Flávio pode aparentar saldo positivo. Na pior, como na história do jovem pastor mentiroso e do lobo, ninguém mais vai atender ao chamado. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Comunidade acad�mica deve agir com prud�ncia diante do bolsonarismo
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