Um amigo me procurou recentemente para perguntar o que eu achava de um produto financeiro que ele havia contratado no banco. Antes mesmo que eu começasse a analisar rentabilidade, custos ou riscos, ele explicou a razão da compra: "Fiz para agradar o gerente". A frase parece inocente. E provavelmente muita gente já fez algo parecido. Compra um produto bancário de que não precisa, aceita um investimento pouco atraente ou contrata algo inadequado ao seu perfil com o objetivo de "fortalecer o relacionamento" com o banco. É uma prática antiga que, surpreendentemente, ainda sobrevive. Ela produz pelo menos dois efeitos. O primeiro é mais simples: o cliente tem uma experiência ruim e passa a condenar toda uma categoria de produtos, quando o problema pode não estar no produto em si, mas no fato de ele nunca ter sido adequado àquela necessidade. Uma contratação errada pode criar um preconceito que permanece por anos. O segundo efeito é mais profundo e chama especialmente a atenção neste momento. A conta implícita nessa prática é simples: hoje eu ajudo o gerente a cumprir sua meta e, amanhã, quando precisar de crédito, aumento de limite, redução de tarifa ou uma condição melhor em um financiamento, ele se lembrará de mim. Eu faço algo por ele agora esperando que ele faça algo por mim depois. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. É curioso observar essa prática justamente quando acompanhamos indignados denúncias e suspeitas de corrupção envolvendo agentes públicos. Evidentemente, não estou dizendo que comprar um produto para agradar o gerente seja corrupção no sentido jurídico. As proporções, as consequências, a gravidade e a natureza jurídica são completamente diferentes. Mas a lógica por trás da troca merece uma comparação incômoda. O que nos revolta em muitos dos casos de corrupção que acompanhamos? Alguém recebe um benefício particular e, em troca, usa uma posição que deveria exercer em nome de terceiros para favorecer quem lhe concedeu aquele benefício. O dinheiro público não é do político. A decisão pública não deveria ser usada como moeda de troca para atender a um interesse particular. Agora voltemos ao banco. O gerente também não é dono da taxa de juros, do limite de crédito ou das condições comerciais que administra em nome da instituição. Quando compramos um produto apenas para ajudá-lo a cumprir sua meta esperando que, no futuro, ele nos conceda alguma vantagem, não estamos reproduzindo, em outra dimensão, justamente uma lógica de troca de favores que tanto condenamos quando assistimos ao noticiário? A reflexão também vale para o outro lado. Gerentes que estimulam esse tipo de relação deveriam se perguntar se é adequado receber um benefício pessoal, como o cumprimento de uma meta, em troca da expectativa de uma vantagem futura para o cliente. E as instituições financeiras deveriam avaliar se a conduta que cobramos de quem administra interesses de terceiros não deveria ser igualmente exigida de quem representa seus interesses diante dos clientes. Isso não significa que relacionamento bancário não tenha valor. Tem, e é algo diferente. Um bom gerente conhece o cliente, resolve problemas e pode encontrar soluções que um aplicativo dificilmente encontraria sozinho. Também não há nada de errado em negociar. Imagine que o banco ofereça oficialmente uma taxa menor de financiamento para quem mantém R$ 1 milhão investido na instituição. Mesmo que as condições desses investimentos sejam um pouco menos atraentes, basta fazer a conta. Quanto deixo de ganhar de um lado? Quanto economizo no financiamento? Se o benefício superar o custo, a decisão pode ser perfeitamente racional. É uma negociação transparente entre cliente e banco. Bem diferente é contratar algo inadequado para ajudar o gerente hoje na esperança de criar uma dívida informal de gratidão para amanhã. Nesse caso, você assume um custo certo esperando um benefício incerto. No passado, havia pelo menos uma razão prática para valorizar mais a relação pessoal com o gerente. Ele concentrava informações sobre renda, patrimônio, pagamentos e movimentação financeira do cliente. Mudar de banco significava praticamente reconstruir esse histórico. A fidelidade tinha um valor econômico maior. A tecnologia reduziu essa dependência. Hoje podemos abrir contas em minutos, comparar investimentos e crédito entre várias instituições e fazer portabilidade. Com o Open Finance, informações financeiras podem, mediante autorização, ser compartilhadas entre instituições. O próprio Banco Central aponta entre seus objetivos aumentar a competição e facilitar o acesso a produtos e condições mais adequados ao cliente. Boa parte das informações que antes ficavam concentradas na relação com seu gerente hoje pode ser demonstrada pelos seus próprios dados. A competição aumentou e o custo de procurar outra instituição caiu. A relação pessoal continua tendo valor, mas deixou de ser a única porta para conseguir boas condições. Por isso, antes de comprar um produto para "agradar o gerente", proponho um teste simples: se ele não soubesse que você fez aquela aplicação, você ainda a faria? Se a resposta for sim, provavelmente o produto se sustenta por seus próprios méritos. Se for não, talvez você esteja comprando algo de que não precisa para receber, no futuro, um benefício que nem sabe se virá. Foi justamente isso que pensei quando meu amigo contou por que havia feito aquela aquisição. Antes de perguntar se o produto era bom, havia uma questão anterior: por que ele precisava comprar alguma coisa para merecer um bom atendimento do banco no qual já era cliente? É fácil condenar a troca de favores quando somos espectadores. Mais difícil é reconhecê-la quando fazemos parte dela e esperamos ser os beneficiados. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Comprar um produto para agradar o gerente � uma esp�cie de corrup��o?
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