Compra de diesel russo no Brasil vira disputa de R$ 4 bilh�es

Compra de diesel russo no Brasil vira disputa de R$ 4 bilh�es

São Paulo A importação de óleo diesel da Rússia, em guerra com a Ucrânia, para o Brasil não trouxe apenas lucro às diversas "tradings" (comercializadoras de commodities) envolvidas, mas também uma disputa empresarial internacional de quase R$ 4 bilhões envolvendo uma empresa local e um gigante alvo de diversas suspeitas. Desde que a União Europeia aprovou sanções ao petróleo russo e seus derivados, em dezembro de 2022, Moscou passou a redirecionar suas exportações para outros atores a preços convidativos. Até agosto deste ano, 11% do diesel russo exportado foi para o Brasil, ante 12% para a China e 26% para a Turquia. Petroleiro russo que opera sob sanções ocidentais durante operação no estreito de Cingapura - Hakon Rimmereid - 18.mar.25/AFP A Rússia tornou-se assim a principal fonte do produto para o Brasil, que compra 30% do que precisa do derivado no exterior. Em abril deste ano, o país forneceu 90% do que foi importado, um movimento que diminuiu devido aos ataques ucranianos a refinarias russas. Com a crise de abastecimento crescendo, Vladimir Putin impôs um veto às exportações no fim de junho que, até aqui, vem sendo renovado. Com isso, os Estados Unidos ocuparam a posição da Rússia, com 74% do mercado em agosto —mês que não viu uma gota de diesel do país europeu chegar. Enquanto durou, foi uma festa: o governo federal calcula que tenham sido importados cerca de R$ 99 bilhões em diesel russo no período, em valores ajustados. Todo um ecossistema de empresas se formou em torno do negócio, que envolvia acesso a navios sob sanções ocidentais, mas que era legal, pois o Brasil não adotou proibições. A principal empresa se chama Coral Energy, baseada em Dubai, mas com origens no Azerbaijão. A companhia chegou a controlar 80% das vendas por meio de diversas subsidiárias ou associadas, segundo estimativas do mercado. A partir do fim de 2024, o grupo foi objeto de sanções europeias por driblar o teto aceito para pagamento de petróleo e derivados russos. Mudou de nome para 2Rivers e começou um processo de desmonte e remanejamento de operações, deixando grandes clientes brasileiros sem opção, situação agravada pelo veto russo neste ano. Segundo investigação do jornal britânico Financial Times, a 2Rivers está no centro de um esquema bilionário global envolvendo distribuição irregular do produto russo. Um dos fundadores da empresa, Tahir Garayev, negou participar de quaisquer ilegalidades. Uma operadora brasileira ligada à 2Rivers foi incluída em um pacote de sanções britânicas no começo deste ano. Ela, que nega irregularidades, usou, segundo o governo, navios de Moscou e da chamada frota fantasma russa, cujas embarcações navegam com outras bandeiras. No começo de 2024, a Coral havia firmado uma parceria comercial com a Dia 33, grupo controlado no Brasil pelo russo Igor Soglaev. No papel, todo o lucro com o diesel de Putin seria dividido entre os sócios na joint venture. Na prática, contudo, deu tudo errado. O negócio foi desfeito em poucos meses e transformou-se em uma batalha que agora está na Justiça brasileira e na corte arbitral de Dubai. A Dia 33 diz que a Coral cooptou seus principais executivos para uma operação paralela, usando inclusive carteira de clientes, escritórios e infraestrutura da empresa, para depois desfazer a joint venture. Reclama R$ 138 milhões em indenização. Há uma variedade de acusações na ação que corre na Justiça paulista. Elas são investigadas em um inquérito policial na capital. A Dia 33 diz que a Coral deu descontos sabendo de sua política de preço e promoveu uma campanha de difamação que afastou clientes. Os antigos funcionários chegaram a ocupar um escritório da Dia 33 em São Paulo. Ante essa situação, a 3ª Vara Empresarial da capital apontou indícios de concorrência desleal e buscou limitar as ações associadas à Coral no ano passado. A defesa dos acusados negou ter cometido irregularidades. O ex-diretor de operações da empresa, Fernando Galera, por exemplo, sustentou que tudo não passou de uma discussão societária em torno de uma minuta de acordo que não se concretizou ao fim. A Coral contra-atacou acusando a Dia 33 de apropriação indébita de uma carga de diesel da empresa, alegando que tinha direitos como integrante da joint venture. Nesse caso, que corre na Justiça do Paraná, a companhia estrangeira pediu o bloqueio de R$ 133 milhões da rival, mas a liminar foi indeferida. A Dia 33 argumenta ter perdido dinheiro com dívidas trabalhistas e estocagem de combustível, citando até R$ 800 milhões em débitos. Empresas do grupo fizeram um pedido de recuperação judicial, mas ele foi indeferido em julho deste ano. Uma frente central da disputa está no Centro Internacional de Arbitragem de Dubai, onde a Dia 33 pede desde 2025 o ressarcimento de US$ 703 milhões (R$ 3,7 bilhões) à Coral/2Rivers. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.Em meados deste ano, a entidade determinou o arresto de bens dos acusados enquanto o processo é analisado, medida confirmada em órgão análogo em Hong Kong. A exposição internacional e mesmo o processo de dissolução da 2Rivers poderão dificultar a execução de quaisquer decisões favoráveis à Dia 33. A Folha buscou contato com representantes da empresa no exterior nas três últimas semanas, sem sucesso. A disputa se soma a outros problemas envolvendo o diesel russo no Brasil. O produto estava no centro do esquema de fraude tributária investigado envolvendo o Grupo Refit, dono da refinaria de Manguinhos, e no emprego de empresas fantasmas pelo PCC para comprar o derivado e revendê-lo em suas redes de postos de combustíveis.

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