O paulistano Leonardo Martinelli está entre os compositores de música clássica que gostam de projetos arriscados. Como adaptar "Navalha na Carne", de Plínio Marcos, para a linguagem da ópera? Faz sentido compor uma trilha sonora para "Limite", um clássico do cinema mudo brasileiro, quase um século depois de lançado o filme? Como a poesia de Hilda Hilst pode ser transposta para a música para coro? Nesta semana e nas próximas, Martinelli vai demonstrar mais uma vez sua vocação para missões espinhosas. Nesta quarta, dia 28, a Estação Motiva Cultural, na Sala São Paulo, apresenta o filme de Mário Peixoto, lançado em 1931, com os acordes de uma longa partitura escrita por ele. "Limite" terá o acompanhamento do Percorso Ensemble, sob a direção musical do maestro Ricardo Bologna, em uma apresentação que integra a 50ª edição da Mostra de Cinema de São Paulo. Daqui a duas semanas, nos dias 12, 13 e 14 de novembro, o Coro da Osesp, o quarteto de percussão Martelo e quatro pianistas interpretam "Cânticos da Casa do Sol", uma peça de autoria de Martinelli baseada principalmente em "Poemas Malditos, Gozosos e Devotos", livro de Hilda Hilst lançado em 1984. Será a novidade em um programa na Sala São Paulo que terá ainda "As Núpcias", de Igor Stravinsky, e "Salmos de Chichester", de Leonard Bernstein, entre outras peças. Filho de professores de história da rede pública, Martinelli cresceu no bairro do Jaçanã, na zona norte da cidade, e começou a se interessar por música quando a família passou a comprar fascículos, com vinis, de uma série da editora Abril. Sua avó evangélica comprou um órgão eletrônico para aprender as canções ouvidas na igreja, e o menino, aos dez anos, se interessou pelo instrumento. Não demorou para se matricular na Universidade Livre de Música, a ULM, hoje Escola de Música do Estado de São Paulo, a Emesp. Ia de ônibus e metrô do Jaçanã ao Bom Retiro, onde ficava a ULM. Não se via como um intérprete acima da média. Gostava mesmo era de inventar e reinventar melodias ao piano e teve a sorte de contar com a paciência dos primeiros professores. Aos 15 anos, concluiu a sua primeira composição, "uma peça suave, em um estilo do século 18", diz. Para Curtir SP Receba no seu email um guia com a programação cultural da capital paulista Dois anos depois, foi o mais jovem estudante selecionado para o curso de composição do Festival de Inverno de Campos de Jordão. Sob a orientação do professor Flo Menezes, passou um mês imerso em música. "Foi uma experiência transformadora e, ao fim deste período, pensei: ‘É composição que eu quero’", conta. "Não falo que sou pianista em respeito aos meus amigos que tocam piano de verdade, falo que eu sou 'pianeiro'", diz em tom bem-humorado. E assim foi. Graduou-se na Unesp, onde fez mestrado e doutorado. Em 2001, promoveu na universidade o primeiro concerto só com composições suas. A essa altura, já tinha se distanciado um pouco das convenções, como as que guiaram suas criações de adolescência, embora nunca tenha se deixado levar por um radicalismo inacessível, característico de parte da música contemporânea. Não é à toa que admire tanto o italiano Luciano Berio, que morreu em 2003. "Berio traz uma modernidade sem fetichismo, não é um compositor difícil para o público", afirma. Entre os brasileiros, aponta Claudio Santoro, Silvio Ferraz e o próprio Flo Menezes entre suas influências. Ao longo da carreira, ele tem se dividido em formatos variados —composições para orquestra e para percussão, música de câmara e peças para coro. Já compôs cinco óperas, das quais o destaque é "Navalha na Carne", que estreou no Theatro Municipal de São Paulo em 2022. Essa produção tem uma particularidade histórica: foi a primeira vez que o teatro, àquela altura com 111 anos, encomendou uma ópera para um autor. "Profundo conhecedor do canto lírico e da música instrumental, Martinelli sabe explorar ao máximo a potência de cada instrumento e das vozes", diz Roberto Minczuk, maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. Eles trabalharam juntos em "Navalha", que teve ingressos esgotados nas seis apresentações. Entre dezenas de criações do compositor ao longo de três décadas de carreira, nenhuma é tão longa quanto a música feita para "Limite". O filme de Peixoto dura duas horas, e a trilha composta por Martinelli o acompanha ininterruptamente. O trabalho do autor teve início em 2023 e, entre idas e vindas, estendeu-se até abril deste ano. Trechos movimentados do filme exigiram muito do compositor, que levou três semanas para compor uma passagem de apenas 40 segundos que mostra um naufrágio. Martinelli não teve vida fácil nesse projeto, assim como os instrumentistas do Percorso Ensemble não têm tido. Ao longo de seis ensaios, tiveram que aprender a dividir a atenção entre as instruções do regente, as cenas de "Limite" e um cronômetro. Um descuido qualquer pode pôr a perder a sincronia entre o filme e a trilha. Depois do diálogo com Mário Peixoto, o lirismo de Martinelli conversa com Hilda Hilst. A música viaja no tempo e constrói pontes improváveis.
Compositor Leonardo Martinelli leva a m�sica cl�ssica ao cinema e � poesia
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