Como uma cozinheira turca me ajudou a aguentar a tens�o do segundo turno

Como uma cozinheira turca me ajudou a aguentar a tens�o do segundo turno

Para sobreviver a momentos tensos, como os que vivemos nas últimas semanas, é preciso encontrar estratégias. A minha operação de sobrevivência à tensão do segundo turno foi assistir vídeos de receitas de uma dona de casa turca chamada Betül Tunç. Precisaria de uma aula de turco básico para aprender o que significa o som do trema no "u", a cedilha no final da palavra, é realmente uma nova alfabetização. O fato é que essa senhora me salvou da agonia de uma eleição presidencial neurastênica. A vida toda é assim, não tem como aguentar sem ilusões, válvulas de escape e algumas irresponsabilidades inofensivas. Soube que ela começou a gravar vídeos durante a pandemia, mas só agora a descobri, atrasada. É uma mulher cozinhando, como tantas outras, mas diferente de tudo o que já vi antes. O Jamie Oliver, por exemplo, fala tão rápido que aperreia o juízo. A primeira coisa incrível da turca é que os vídeos não têm conversa, não têm fala, ela não explica absolutamente nada com palavras. É só o gestual da culinária, mistura, sova, bate, unta, leva ao forno, tira do forno, corta, fatia, esses verbos acontecendo com calma. O único som é uma seleção de músicas instrumentais, piano tranquilo, violino choroso, uma paz. A ordem predeterminada na partitura. Além disso, a estética é de outros séculos. A batedeira é manual, funciona ao girar uma manivela. Os utensílios, as bacias, rolo de abrir massa, é tudo louça antiga, madeira, ferro. De vez em quando uma forma de louça tem uma pontinha quebrada, o imperfeito convive em paz. As travessas parecem todas herdadas de uma bisavó, comprada em um mercado de pulgas. Quase tudo é azul com branco, vez ou outra chega outra cor para aquecer. Nada dá errado. Nada. As medidas, o tempo, tudo funciona perfeitamente e todos os resultados são impecáveis. Claro que é tudo produzido e planejado, mas faço questão de esquecer que há uma edição que acelera o tempo discretamente e faz tudo parecer mais simples e rápido do que é. Deixa assim. Uma das coisas mais eficazes desses vídeos é a sensação de calma. Relaxa de verdade. Quase ninguém está calmo ao nosso redor, só essa moça turca mesmo. Nem aí pra nada. O importante é deixar que o fermento descanse o suficiente para oxigenar a massa e garantir a fofura do pão, do bolo. Betül Tunç nos ilude e nos faz acreditar que o mundo pode ser perfeito por três minutos. Cinco, talvez. Ela serve a comida, corta um pedacinho ao final. Ali, naquela mesa, o universo está em perfeita ordem. As frutas estão maduras, o bolo desenforma perfeitamente, nada desanda, tudo vibra. Reparando nisso, eu entendi que cozinhar em silêncio é uma forma de meditação. O mundo lá fora está explodindo em caos, mas aqui nessa mesa, nesse fogão, está tudo sob controle. Há tempo para dedicar ao ritual de preparar e comer. Que cansaço. Nada valeria mais hoje do que o conforto de uma torta de frutas em prato florido, antigo, vindo de um tempo em que a vida era mais tranquila. Comprei a ilusão da turca. Vou comprar seu livro, um dos mais vendidos no mundo. Fazer um bolinho, esperar o ano acabar, respirar fundo e recomeçar a luta. Todos os dias. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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