Há 60 anos, quando o ChildFund chegou ao Brasil, o país era outro. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) ainda nem existia. A proteção integral da infância não era um princípio garantido por lei, e direitos hoje considerados fundamentais ainda dependiam, em grande medida, da mobilização de OSCs (Organizações da Sociedade Civil) e de pessoas que acreditavam que toda criança merece crescer com dignidade, segurança e oportunidades. O ChildFund nasceu na guerra sino-japonesa, em 1938, inicialmente com o nome China's Children Fund, para prestar assistência a crianças afetadas pela guerra. Quase três décadas depois, em 1966, a organização chegou ao Brasil, estabelecendo sua primeira sede em Belo Horizonte (MG). Foi nesse tempo que iniciamos nossa trajetória. Em um país marcado pela pobreza extrema, pela desnutrição infantil e pela ausência de políticas públicas estruturadas para a infância, nossa atuação estava voltada para responder às urgências daquele momento. Ajudamos a ampliar o acesso à saúde, à alimentação, à água potável, à educação infantil e ao fortalecimento das comunidades, sempre ao lado de organizações locais e das famílias. Mas seria um erro acreditar que a missão terminou. Os desafios apenas mudaram de forma. Se ontem a maior ameaça era a falta de alimento, hoje ela também pode estar na tela de um celular. Se antes era preciso construir creches e ampliar o acesso à saúde básica, hoje precisamos discutir também inteligência artificial, algoritmos, exploração sexual online, cyberbullying, aliciamento em jogos virtuais e os impactos do excesso de tempo conectado no desenvolvimento infantil. Proteger crianças atualmente exige compreender um mundo que muda em velocidade inédita. Nos últimos anos, investimos em pesquisas, produção de evidências e incidência em políticas públicas porque entendemos que não basta reagir aos problemas, é preciso antecipá-los. O levantamento "Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet", realizado pelo ChildFund, revelou um dado alarmante: 54% dos adolescentes brasileiros sofreram algum tipo de violência sexual no ambiente online. Ao mesmo tempo, 94% afirmam não saber como denunciar situações de risco. Foi esse compromisso com a proteção da infância que nos levou a ampliar a campanha Maio Laranja para além da violência presencial, incorporando a prevenção da violência sexual na internet. Também contribuiu para nossa participação ativa no debate que culminou na sanção do ECA Digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente). Da mesma forma, apoiamos a aprovação da Lei nº 14.826/2024, conhecida como Lei do Brincar, que reconhece a parentalidade positiva e o brincar como estratégias para prevenir a violência e promover o desenvolvimento saudável das crianças. Em uma sociedade cada vez mais hiperconectada, brincar deixou de ser apenas uma atividade da infância. Tornou-se uma política pública de proteção. Esse compromisso com resultados concretos também explica os reconhecimentos que recebemos recentemente. Entre eles estão o Prêmio Melhores ONGs, que nos reconhece entre as 100 melhores do país por oito anos; a presença entre as 20 organizações mais bem avaliadas pelo The Dot Good e a Medalha Ouro da Engaja Brasil em transparência e compliance. Se há uma certeza de que estes anos nos ensinaram, é que proteger crianças nunca foi responsabilidade exclusiva das famílias, das escolas, do governo ou das ONGs. É uma responsabilidade compartilhada. Criar futuros continua significando exatamente isso: agir no presente para que nenhuma criança deixe de brincar e sonhar com um futuro cheio de oportunidades. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Como proteger a inf�ncia em um mundo que nunca para de mudar?
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