Como pa�ses que reduziram jornada de trabalho evitaram diminui��o da produtividade

Como pa�ses que reduziram jornada de trabalho evitaram diminui��o da produtividade

Países que reduziram ou limitaram a jornada de trabalho enfrentaram o temor de queda da produtividade com transições graduais, flexibilização de horários e investimentos em automação e reorganização de processos, mostram estudos internacionais. No Brasil, o Senado aprovou nesta quarta-feira (14), em dois turnos, a proposta que põe fim à escala 6x1. A mudança também ganhou centralidade neste segundo turno das eleições presidenciais, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL). A questão da baixa produtividade do trabalho no Brasil é tema de discussão há décadas. Após se reaproximar da média mundial, a produtividade do trabalhador brasileiro recuou desde a pandemia. Praticamente travada nos últimos 30 anos, em 2024 ela equivalia a menos de um quarto, em termos de riqueza, do que é produzido por um trabalhador norte-americano, segundo o Conference Board. Em ranking com 131 países, liderado por Luxemburgo, Noruega e Dinamarca, o Brasil ocupava o 78º lugar, atrás de Uruguai (48º), Argentina (56º) e Chile (59º). Fica uma posição à frente da China (79º, quando analisada separadamente de Hong Kong, que está em 21º) e à frente da Índia (101º). Economistas apontam que países ultraprodutivos têm economias baseadas em tecnologia, finanças e indústrias automatizadas, nas quais produzir mais depende de software e máquinas. O Brasil concentra vagas no comércio e nos serviços presenciais, onde menos horas trabalhadas frequentemente exigem a contratação de outra pessoa para cobrir o turno. A produtividade também tem ligação direta com a qualificação: sem treinamento ou ferramentas melhores, trabalhar menos horas tende a reduzir a entrega total da empresa. A OIT (Organização Internacional do Trabalho), no relatório "Redução da Jornada de Trabalho: Evolução Global e Desafios para a América Latina", de 2025, afirma que os efeitos da redução sobre variáveis macroeconômicas como emprego, salários e produtividade costumam ser moderados e dependem em grande medida do contexto econômico, institucional e cultural de cada país. Segundo a organização, estudos sobre reformas em Portugal, França, Bélgica, Itália e Eslovênia mostram reduções significativas nas horas trabalhadas, acompanhadas de aumentos salariais. As empresas, porém, não compensaram a redução contratando mais pessoal, e o efeito líquido sobre o emprego foi muito modesto. A flexibilidade no tempo é uma das recomendações da OIT: a Recomendação 116 aponta que a redução pode ser implementada em etapas espaçadas ou abranger diferentes setores de forma gradual, além de admitir outros acordos "que possam ser mais adequados às condições nacionais e condições de cada setor de atividade econômica". No Brasil, haverá um período de transição. Em um primeiro momento, a carga horária semanal cairá de 44 horas para 42 horas semanais, e será implantada a escala 5x2, sem redução de salário. Após 12 meses, haverá a redução da jornada de trabalho de 42 horas semanais para 40 horas. Veja como diferentes países lidaram com a questão da produtividade quando reduziram a jornada de trabalho: Chile fez transição em etapas e flexibilização setorial Em 2023, o Congresso chileno aprovou um projeto de lei para reduzir gradualmente a semana de trabalho de 45 horas para 40 horas. O país priorizou previsibilidade e flexibilidade jurídica para que o mercado absorvesse os novos custos sem demissões. A transição é de cinco anos: 44 horas no primeiro ano, 42 horas no terceiro e, por fim, 40 horas, para facilitar o planejamento financeiro, sobretudo às micro e pequenas empresas. A lei também permitiu calcular as 40 horas como média ao longo de quatro semanas. Se o varejo, por exemplo, demandar 45 horas em uma semana de datas comemorativas, o excesso pode ser compensado com jornadas de 35 horas nas seguintes. O governo ainda ofereceu consultoria técnica gratuita, por órgãos como o Sercotec (agência estatal de apoio aos micro e pequenos empresários, empreendedores individuais e cooperativas), para ajudar pequenos negócios a redesenhar turnos e adotar softwares de gestão de tempo. Entre 2013 e 2024, a produtividade do trabalho no Chile registrou crescimento acumulado de 13%, aponta um artigo publicado pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O texto defende que os ganhos de produtividade anteriores se transformaram em um bônus que pôde ser distribuído por meio da redução da jornada. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Coreia do Sul teve automação e escalonamento por porte de empresa A Coreia do Sul enfrentava uma crise crônica de excesso de trabalho, com longas jornadas e baixa eficiência. A questão principal lá era limitar a jornada, e o teto de 52 horas semanais (40 horas regulares com até 12 horas extras), foi implementado em 2018 como um "choque de gestão". Sem poder estender turnos, a indústria acelerou o investimento em robótica e automação de processos; nos escritórios, softwares passaram a desligar os computadores após o horário regulamentar para impedir jornadas ilegais. Os prazos variaram por porte: as grandes corporações e o setor público tiveram de se adaptar de imediato, enquanto as pequenas empresas tiveram mais tempo. O governo criou subsídios temporários para aquelas que precisaram contratar para cobrir turnos antes preenchidos por horas extras. Um trabalho de 2025 da Universidade Chung-Ang aponta que a produtividade por trabalhador permaneceu estável apesar da redução das horas. Os custos com mão de obra diminuíram, principalmente pela queda no pagamento de horas extras. Islândia priorizou resultados e otimização do tempo Quando a Islândia propôs uma semana de trabalho mais curta, o ceticismo era grande: temia-se que a produtividade diminuísse, que as empresas enfrentassem custos maiores ou que a qualidade do serviço caísse. O projeto-piloto iniciado em 2015 reduziu essas preocupações. Os testes —os maiores do mundo no setor público— reduziram a jornada de 40 para 35 ou 36 horas e focaram a eficiência dos processos. Reuniões longas foram encurtadas ou substituídas por emails e plataformas de gestão, tarefas e fluxos redundantes foram eliminados e alguns órgãos reduziram ligeiramente o horário de atendimento ao público para processar demandas internas. Um relatório de 2024 do The Autonomy Institute aponta que 86% da força de trabalho islandesa já trabalha menos, em geral, de até 36 horas por semana. Segundo um artigo de 2021 da Alda (organização local que estuda temas de democracia, mercado de trabalho e sustentabilidade), os indicadores de eficiência permaneceram dentro da variação esperada ou até melhoraram. Os entrevistados relataram um aumento de bem-estar, otimismo, felicidade e energia, e os sintomas de estresse e esgotamento diminuíram, com efeitos que persistiram por ao menos um ano.

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