O avanço transnacional das economias criminosas deixou de ser um problema restrito às fronteiras. Infiltrou-se nas instituições e no mercado formal, ameaçando a estabilidade econômica de toda a América Latina. Essa foi a conclusão do seminário internacional "Mercados Sitiados: Crime Organizado Transnacional e a Ascensão das Economias Ilícitas nas Américas", realizado em junho, em São Paulo, pela Cátedra Oswaldo Aranha de Segurança e Defesa (COA) e pela Escola de Segurança Multidimensional (Esem-USP).Dados da OCDE estimam que os mercados ilegais respondam por 2% a 5% do PIB mundial. Outros estudos projetam entre 10% e 14%. Relatórios do Gafi (Grupo de Ação Financeira Internacional), e do Grupo Egmont alertam que a lavagem de dinheiro, o comércio ilícito e o financiamento ao terrorismo avançam por mecanismos sofisticados de ocultação e evasão fiscal. No Brasil, a venda de tabaco oferece um raio-X dessa operação. O mercado ilegal de cigarros representa cerca de um terço do consumo nacional. Segundo o Ipec, o comércio clandestino movimenta aproximadamente R$ 9 bilhões por ano. Como definiu o professor Renan Pieri, da FGV-Eaesp durante o seminário, "o cigarro ilegal não é um desvio marginal, ele é uma engrenagem financeira do crime organizado". O aumento da tributação e do preço mínimo pode ampliar a distância entre produtos legais e ilegais, estimular consumidores a migrar para a clandestinidade e fortalecer as facções. Na América Latina, dados da Central de Investigação, Monitoramento e Análise (CIMA) e do relatório da KPMG apresentado em Washington revelam o impacto fiscal do cigarro ilícito.Em 2025, a região deixou de arrecadar US$ 8,5 bilhões. De cada 100 cigarros consumidos no mundo, 15 são ilegais. Na América Latina, são 32. A proporção chega a 89 no Panamá, 88 no Equador, 40 na Colômbia e 36 no Brasil. Dos 117 bilhões consumidos anualmente no país, 41 bilhões vêm do contrabando, sobretudo do Paraguai, ou da produção clandestina, gerando evasão fiscal anual de US$ 2,6 bilhões. Esse poder financeiro permite ao crime transnacional migrar para setores essenciais. O seminário mapeou o tráfico de combustíveis, o huachicol, que drena US$ 13 bilhões por ano no México e avança no Brasil; o comércio ilegal de ouro, responsável por 80% da extração na Colômbia; e dispositivos eletrônicos e vapers, que já alcançam até 30% de ilegalidade em países latino-americanos. Essa simbiose entre crime organizado e terrorismo levou os Estados Unidos a classificar dez organizações de narcotráfico latino-americanas como grupos terroristas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC), com influência em 14 países, e o Comando Vermelho (CV). México, Guatemala, Colômbia e Brasil foram advertidos pelos EUA por sua fraca cooperação no combate às redes transnacionais e excluídos do Escudo das Américas.O consenso técnico dos 26 especialistas reunidos na USP aponta para o fortalecimento da cooperação internacional, do intercâmbio de inteligência e da investigação criminal. A Operação Jalisco, no México, que neutralizou o megatraficante "El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), demonstrou a importância do compartilhamento de informações com a inteligência estadunidense. Enfrentar o mercado ilícito é uma questão de sobrevivência econômica. Ignorar as engrenagens financeiras dessas redes criminosas é abrir mão da soberania sobre os próprios mercados. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Como o mercado il�cito sufoca a economia da Am�rica Latina
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.