Investidores estão preocupados com o volume de dívida acumulado pelo governo americano, e os rendimentos dos títulos são um dos principais indicadores dessa preocupação. Os rendimentos —ou taxas de juros— dos títulos do Tesouro americano de 30 anos ultrapassaram 5,3%, em uma máxima de quase duas décadas. A alta foi impulsionada pelo receio em relação à guerra no Irã, à inflação, à instabilidade das contas públicas e aos gastos desenfreados com inteligência artificial (IA). O mercado de títulos do governo dos Estados Unidos, conhecido como mercado de Treasuries e avaliado em quase US$ 32 trilhões (R$ 166,2 trilhões), oferece um sinal claro de para onde a economia pode estar caminhando. Mais especificamente, é o rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos que costuma definir o rumo das taxas de juros para os consumidores, incluindo financiamentos imobiliários e de automóveis. Esses juros podem afetar desde empréstimos estudantis até o mercado imobiliário. O rendimento dos títulos de 30 anos acompanha de perto o dos papéis de 10 anos. A seguir, um guia para entender o que está acontecendo com os rendimentos dos Treasuries e por que isso importa. O QUE É UM TÍTULO? Primeiro, o básico. Um título é uma forma de dívida de renda fixa. Isso significa que, quando ele é emitido, alguém está tomando dinheiro emprestado e outra pessoa está emprestando. No mercado de títulos do governo americano, o tomador é o governo federal, e os papéis são chamados de Treasuries. Outros governos também emitem títulos desse tipo: no Reino Unido, eles são conhecidos como gilts; no Japão, como JGBs. Os Estados Unidos emitem títulos com diferentes "prazos de vencimento", expressão que indica quando a dívida precisa ser quitada. As Treasury bills (letras do Tesouro dos EUA) são títulos de curto prazo, com vencimentos que variam de quatro semanas a um ano. As Treasury notes são de médio prazo, com vencimentos entre 2 e 10 anos. Já os Treasury bonds (títulos do Tesouro dos EUA) têm vencimento de 20 ou 30 anos. O credor é o investidor que compra o título e espera receber juros sobre o investimento. Essa é uma diferença importante entre um título e outros ativos que as pessoas compram ou negociam, como ações: o rendimento de um título representa o retorno anual total que alguém pode esperar obter com ele. O rendimento de um título sobe quando seu preço cai, e vice-versa. Assim como a taxa de juros paga por um proprietário em um financiamento imobiliário, o rendimento de um título reflete uma série de fatores: quando a dívida será paga, o risco de que isso não aconteça e a avaliação do investidor sobre se o retorno do empréstimo será mais vantajoso do que o de outros investimentos, como ações e criptomoedas. Quando um investidor mantém um título do Tesouro até o vencimento, o retorno que receberá é fixo. Mas, como os títulos do governo são negociados publicamente, seu valor pode subir ou cair, assim como o preço de uma ação. Isso significa que os rendimentos também se movimentam. Rendimentos mais altos indicam que os investidores estão exigindo um retorno maior para considerar o investimento vantajoso. POR QUE OS RENDIMENTOS DOS TÍTULOS ESTÃO SUBINDO? Normalmente, é o Treasury de 10 anos que recebe mais atenção. Seu rendimento vem subindo desde o fim de fevereiro, quando estava em 3,96%. Embora a alta tenha começado a perder força em abril e novamente em maio, o rendimento voltou a disparar no fim de junho. Atualmente, está em 4,66%. A alta tem sido menos acentuada do que em movimentos anteriores, como quando o presidente Donald Trump anunciou tarifas abrangentes em abril de 2025. Ainda assim, os investidores estão atentos a uma combinação de fatores que dificilmente deve conter a alta dos rendimentos. As idas e vindas nas negociações por um acordo de paz no Irã continuam abalando os mercados de petróleo, o que, por sua vez, aumenta as preocupações com os índices de inflação e com o custo de vida. A isso se somam os gastos desenfreados das empresas de tecnologia com inteligência artificial, que levaram alguns analistas a considerar que o entusiasmo com a tecnologia desviou investidores dos títulos, enquanto outros avaliam que essa euforia elevou as expectativas de crescimento e inflação. "O comprador de Treasuries está agora muito mais sensível aos preços, o que significa que os investidores estão exigindo um rendimento maior para absorver tanto as emissões do governo quanto as corporativas", escreveu Jason Goldberg, analista do Barclays, em uma nota. Alguns analistas afirmaram que a recente queda do mercado de ações era um sinal de que os investidores em renda variável também estavam mais preocupados com os rendimentos dos títulos. Normalmente, os preços dos títulos e das ações se movimentam em direções opostas. Quando as ações caem, os investidores migram para ativos considerados mais seguros, como os títulos do governo, para se proteger das perdas. Essa correlação negativa persistiu durante as duas primeiras décadas do século 21, mas mudou recentemente. A correlação agora é positiva e está no nível mais alto desde os anos 1990, segundo analistas do Bank of America em um relatório divulgado na quarta-feira (19). Essa mudança significa que os títulos já não funcionam como proteção contra perdas da mesma maneira que antes, porque, quando as ações caem, os preços dos títulos também caem. "Os investidores não estão mais dispostos a pagar o mesmo prêmio por uma classe de ativos que oferece menor capacidade de proteção", escreveram os analistas do Bank of America. COMO A ALTA DOS RENDIMENTOS AFETA A ECONOMIA? Uma das razões pelas quais o rendimento dos Treasuries de 10 anos recebe tanta atenção é que ele serve como ponto de partida para que os credores definam as taxas de financiamento imobiliário. Assim, quando o rendimento sobe, fica mais caro contratar um empréstimo para comprar uma casa. Na quarta-feira (19), a taxa média de um financiamento imobiliário de 30 anos era de 6,67%, acima dos cerca de 6% registrados no início do ano, segundo dados da Freddie Mac. Como os Treasuries são emitidos com diferentes prazos de vencimento, cada conjunto de títulos oferece indicações sobre o que pode acontecer com a economia em diferentes horizontes de tempo. Em geral, quanto mais longo o prazo de um investimento, maior é o retorno que os investidores em títulos esperam receber. Afinal, temos mais certeza sobre o que acontecerá nos próximos três meses do que sobre o que ocorrerá na próxima década. Por isso, o rendimento de um Treasury de 10 anos normalmente é maior do que o de um título que vence em apenas alguns meses ou em alguns anos. Quando essa relação se inverte em períodos de maior ansiedade econômica, como ocorreu em 2022, o movimento é usado como indicador de recessão, porque o risco no curto prazo passa a superar o risco de longo prazo. Embora os rendimentos ainda tenham espaço para subir "moderadamente", a alta não é, por enquanto, motivo para alarme sobre uma eventual rejeição dos compradores ou sobre um mercado disfuncional, segundo nota divulgada na quarta-feira (19) por Lawrence Gillum, estrategista-chefe de renda fixa da LPL Financial. A demanda pelos títulos oferecidos nos leilões de três, dez e 30 anos realizados na semana passada foi considerada razoável, afirmou Gillum. "O mercado está absorvendo os papéis", disse. "Esse é o mecanismo que esperaríamos em um processo de normalização: rendimentos mais altos atraem compradores. Em uma crise, rendimentos mais altos os afastam."
Como o mercado de US$ 32 trilh�es do Tesouro dos EUA afeta a economia
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