Desde que a obra de Lima Barreto foi recuperada pela crítica literária brasileira como parte integrante de seu cânone, o adjetivo "triste" costumou acompanhar o autor. Muito por associação ao seu romance mais conhecido, "Triste Fim de Policarpo Quaresma", mas também por sua biografia, marcada por sucessivas internações no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro, e uma morte precoce aos 41 anos. Nas poucas fotografias a que temos acesso, o autor carrega sempre o semblante severo. Mas, na capa de "Modernismo Negro", do poeta e professor Jorge Augusto, Lima Barreto exibe um sorriso, ainda que contido. É a fotografia de sua ficha de internação, tirada em 1914, alterada por inteligência artificial para fazê-lo sorrir. Vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria de letras, linguística e estudos literários, o autor explica que a capa reflete o propósito do livro. "A capa é um recado: o que vocês vão ver aqui não é o que estão acostumados a ver na tradição, a literatura negra como um texto pesado, cheio de dor, luto, resistência e violência, mas o negro sorrindo", aponta o pesquisador. "Esse lado da luta também está presente, porque faz parte da vida não só do negro, mas do Brasil. A capa diz: nós estamos vivos e sabemos sorrir." O riso de canto de boca de Barreto se abre em ilustrações internas que vão escancarando o que Augusto chama de "uma gargalhada na cara dos caretas", refletindo a ironia e o gracejo da literatura do autor de "Triste Fim de Policarpo Quaresma". Questiona: "O que é sorrir tendo uma vida periférica e negra?" A aspiração do livro é partir de sua literatura para discutir o campo das letras de forma mais ampla. Jorge Augusto escreve que seu investimento crítico é "mover o campo da literatura brasileira, multiplicar seus movimentos, alargar seus espaços, democratizar seu acesso". Tal ímpeto de transformação atravessa também sua atuação como professor universitário, poeta e pesquisador. Nascido em Salvador e criado no bairro da Liberdade, um dos mais populosos da cidade e importante centro da cultura afro-brasileira, Augusto enxergava na Bahia uma cena literária "asfixiada, branca e elitista", com poucas possibilidades de publicação nas mais diversas linhas de produção textual. "Era preciso revolucionar essa cena", diz ele. Essa revolução foi feita no formato da editora Organismo, que fundou em 2013 ao lado da antropóloga e socióloga Fernanda Santiago. Sua coleção de estreia, "novos autores", era voltada para poetas inéditos radicados na Bahia. Em 2018, a editora inaugurou o Segundo Selo, linha responsável pela publicação de literatura, teoria e crítica, com o objetivo de incentivar a circulação de trabalhos que têm a democracia e a diversidade como princípios constitutivos. É pela Segundo Selo que Jorge Augusto, não mais no papel de editor e sim de consultor da casa editorial, publica "Modernismo Negro". A atuação editorial de Augusto reflete o pensamento sobre a formação da literatura brasileira desenvolvido no livro. O crítico observa que um certo projeto literário nacional anda sob suspeita. Seu estudo integra um movimento recente na academia e no mercado editorial que questiona a hegemonia do "projeto moderno proposto pela elite colonial/burguesa" na formação do campo crítico nacional. Se esse projeto exclui os cantos, provérbios e demais expressões orais e territorializadas de culturas africanas, uma parcela da crítica já disputa o espaço da cultura da periferia —que para o autor é definido pela cultura negra— na formação da literatura nacional. "Não se trata de construir uma história da literatura negra no Brasil", escreve, "mas de entendermos que não existe literatura brasileira sem a produção textual negra". Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias Nesse contexto, a crítica literária tem o papel de renovar seus métodos para reconhecer os saberes de culturas afro-brasileiras e indígenas na produção nacional. "Por que Nêgo Bispo, Ailton Krenak e Davi Kopenawa fazem tanto sucesso hoje?", pergunta Augusto. "Porque eles nos dão um pouquinho de esperança, outros caminhos para imaginar uma liberdade em sentido coletivo". Ele defende a literatura como um lugar de disputa de formas imaginativas de futuro, frente ao esgotamento do neoliberalismo. "Estamos asfixiados, precisamos de outras possibilidades. Mas elas não podem ser dadas hoje pela cultura europeia e estadunidense", afirma. "Precisamos entender que as pessoas não estão lendo tanta literatura negra e indígena porque elas são boazinhas, mas porque são as literaturas que apontam para outras possibilidades de ver o mundo." Contra generalizações de todo tipo, o pesquisador reconhece que não basta escrever um livro para enfrentar a asfixia do presente, mas clama pela posição do escritor como criador de "redes comunicativas", obras que dialogam com a realidade para propor saídas. "Os autores que estão fazendo uma literatura negra que não é dissidente deveriam fazer outra coisa. A literatura negra não pode e não deve ser integracionista", defende. A crítica literária também colabora com esse projeto ao assumir a postura não de integração, mas da valorização da diferença. Ao se debruçar sobre a obra de Lima Barreto, seu intuito não é encontrar um espaço para ela na prateleira do modernismo, entre Mário de Andrade e João Guimarães Rosa. Esse enquadramento, diz, aplaca seu potencial disruptivo. "O que precisa ser periférico não é só a literatura —ela já é e sempre foi— mas a crítica. A crítica precisa se territorializar." Isso encontra um obstáculo nas condições de produção e circulação de livros no país. Com a concentração do mercado editorial brasileiro na região Sudeste, com parque gráfico centralizado entre Rio de Janeiro e São Paulo, os custos de manter uma editora independente e fazer circular obras editadas na região Nordeste são altos. "Você tem que passar por São Paulo para vender um livro. Se não tiver política pública, acaba o campo do livro na região. É asfixiante a situação das editoras pequenas", conta o autor. As distâncias, aponta ele, encarecem o preço dos livros e dificultam a participação da editora e seus autores em eventos importantes como as Bienais do Livro do Rio e de São Paulo. A ausência de uma distribuidora de livros em uma cidade tão grande como Salvador, a quinta mais populosa do país, demarca a urgência de mudança. Augusto menciona a falta de políticas públicas para baratear o transporte e descentralizar a produção, lamentando o efeito que isso tem sobre seu próprio livro: "Eu não queria que meu livro saísse por R$ 129. Eu quero que o estudante o leia." Apesar das dificuldades, o pesquisador ressalta a relevância do trabalho da editora na cena local. Com sede no bairro onde ele cresceu —"funcionamos na periferia de verdade, dentro da periferia, com um depósito pequeno e um velho escritório"— a editora vem publicando obras com o objetivo de evidenciar a multiplicidade do pensamento negro. Esse leque se espalha por um amplo catálogo que vai da poesia à teoria, da Bahia de Jorge Augusto às Antilhas de Frantz Fanon, para mobilizar as literaturas dissidentes e "reintroduzir a categoria revolução no debate público", conforme defende o autor.
Como o cr�tico Jorge Augusto prop�e revolu��o na cena liter�ria negra e brasileira
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