Como o Brasil pode se beneficiar da onda tecnol�gica da IA

Como o Brasil pode se beneficiar da onda tecnol�gica da IA

[RESUMO] Economista indica três frentes em que o Brasil deve atuar em meio à consolidação da onda tecnológica da inteligência artificial: defesa de uma governança democrática que impeça o domínio de poucas empresas e Estados autoritários, fortalecimento do uso da tecnologia pelo país, em vez da aposta na criação de empresas para competir com companhias dos EUA e da China, e implementação de políticas públicas para a construção de data centers. Há mais de um século, economistas passaram a considerar que a economia mundial era movida por avanços tecnológicos. Entre esses economistas, o mais famoso é Joseph Schumpeter, que dizia que, mais ou menos a cada 60 ou 70 anos, o mundo é completamente transformado por inovações que trazem um aumento de produtividade enorme. Ele chamou esse fenômeno de onda tecnológica. Estamos vivenciando neste momento o final da onda da tecnologia da informação, a quinta, e, ao mesmo tempo, assistindo ao início da sexta, aquela em que máquinas e sistemas passarão, devido à sua capacidade imensa, a realizar tarefas antes exclusivas dos humanos. Estamos, portanto, no limiar da onda da inteligência artificial. Há um tema que antecede toda discussão sobre a tecnologia, que certamente vai nos afetar e que precisa ter o Brasil como protagonista: a governança da IA. Legislar e criar princípios que sejam, ao mesmo tempo, de interesse da humanidade e permitam o desenvolvimento da IA são desafios colocados. Por exemplo, é fundamental que exista algum órgão ou alguma agência que aprove produtos de IA. Esses organismos não podem ser nacionais: ao contrário, precisam ter atuação e responsabilidade global. A IA precisa de um tratado mundial que seja a peça-chave da sua governança. Desde 2024, as Nações Unidas discutem a governança da IA. O seu primeiro documento exaltando a importância dessa tecnologia foi aprovado por consenso em uma reunião com a presença de 193 países. Esse encontro ficou famoso pela frase da então embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Linda Thomas-Greenfield, que disse que temos que governar a IA para que ela não nos governe. Infelizmente, ainda estamos distantes de soluções globais voltadas para o bem de todas as nações e todos os povos. Temos que impedir que a IA seja dominada por poucas empresas —norte-americanas ou chinesas— e garantir que não seja influenciada nem por poucos países nem pelos seus respectivos governantes. O que se nota é o predomínio de poucas companhias que apresentam desenvoltura e competência para se manter à frente. Essas empresas —Nvidia, OpenAI, Google, Anthropic, Microsoft, DeepSeek, Tencent e Huawei— são dos EUA ou da China, e muito pouco é feito fora desse circuito. Essas companhias estão nas áreas de ponta, como produção de chips, modelos e softwares. Se novas empresas surgirem, muito provavelmente serão norte-americanas ou chinesas, por demandarem profissionais que ainda não estão sendo formados de forma suficiente e adequada em outros países. Além disso, essas duas potências são altamente acompanhadas pelos seus governos. Donald Trump determinou, há algumas semanas, que a Anthropic não permita o acesso de estrangeiros aos seus modelos mais avançados —depois, voltou atrás. Como não poderia deixar de ser, os assuntos ligados à tecnologia e à inovação fazem parte, hoje, da rivalidade entre as duas potências —cada uma delas se esmera em impedir que a outra tenha acesso às suas próprias conquistas. Nesse espírito, Xi Jinping esteve na abertura de uma conferência realizada em Xangai em julho em que se discutiram formas de coordenação e organização das atividades de IA. Ficou claro que a China fez uma opção pelos modelos abertos, em oposição aos modelos proprietários dos EUA. Nesse evento, foi anunciada a criação da Waico (Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial), da qual o Brasil passou a fazer parte juntamente com dezenas de países. O evento e a presença de Xi Jinping deixam claro que a Waico é o contraponto chinês para algo semelhante criado pelos EUA em 2025, a denominada Pax Silica, com objetivos um pouco diferentes e com países aliados interessados em dominar e influenciar a cadeia global de suprimentos da IA. São duas iniciativas importantes que estão no âmbito da Guerra Fria entre as duas maiores potências. De fato, o que cada uma delas almeja é se contrapor à outra. Assim como em conflitos bélicos, querem ter países aliados. As questões com as quais nós, brasileiros, devemos nos preocupar são bem diferentes. Alguns exemplos: A IA pode ser independente a ponto de levar o planeta a uma catástrofe? Quem serão os donos da IA e quem serão os prejudicados? A IA vai nos ajudar a eliminar a pobreza ou vai aprofundá-la? É correto permitir que governos exerçam poder e influência sobre os modelos e os dados utilizados pela IA, como hoje acontece tanto nos EUA quanto na China? É correto permitir que meia dúzia de empresas tenha o controle de todas as informações e todos os algoritmos utilizados? Sam Altman, cofundador e CEO da OpenAI, tem dito com frequência que os modelos da sua empresa foram treinados com informações públicas obtidas na internet, em bibliotecas, junto à imprensa e por outros meios. Se os dados utilizados pela IA são quase completamente públicos, é mais que justo que a sociedade civil seja beneficiada pelos ganhos das empresas de IA porque, em essência, é a dona das informações. Essa discussão é altamente complexa e envolve questões ideológicas controversas, mas vem sendo defendida por muitos intelectuais e políticos, como o senador dos EUA Bernie Sanders, a economista italiana Mariana Mazzucato e o ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis. Mazzucato aponta que boa parte das tecnologias e inovações comercializadas por empresas como Apple, Uber e Google foi desenvolvida inicialmente pelo governo dos EUA, que as disponibilizou sem ganhar nada. Segundo ela, o mesmo está acontecendo com a IA, mas com uma novidade importante: daqui para a frente, inovações e novas tecnologias serão consequência do bom uso da IA. Para Mazzucato, portanto, o maior desafio é garantir que o público e outras empresas possam se beneficiar da IA sem que fiquem comprometidos com as empresas dominantes. Varoufakis, Mazzucato e Sanders concordam que há, hoje, uma força motriz que chamam de feudalismo digital. Esses feudos estão presentes nos EUA e na China e precisam ser controlados pela sociedade, mas nunca por Estados totalitários ou empresas dominantes. O Brasil precisa participar da discussão porque existem espaços que podemos ocupar na nova era da IA. Quais são as possibilidades do país vir a se dar bem e se tornar protagonista? Temos pelo menos três: (1) atuar na defesa de uma governança para o bem da democracia e da humanidade, (2) saber usar muito bem a IA e (3) ser um grande provedor de infraestrutura para a IA. (1) Defender uma governança realmente democrática que impeça o domínio de poucas empresas desenvolvedoras e Estados autoritários. O Brasil desfruta de uma situação excepcional em todas as instituições multilaterais. Os diplomatas do Itamaraty veneram de forma inteligente a nossa postura neutra. Como nos casos recentes de atritos com os EUA e a Argentina, vemos que se trata mais de rusgas entre políticos e menos de divergências entre Estados. Na questão da discussão sobre a governança da IA, o Brasil tem todas as condições de atuar junto com a Europa em busca do bem da humanidade e da salvação do planeta. O país deve atuar, sobretudo, para que a governança da IA não seja uma batalha geopolítica entre a China e os EUA. (2) Sermos um bom usuário da IA, como somos da tecnologia da informação. Certamente, não teremos empresas entre as grandes desenvolvedoras de modelos e algoritmos e, muito menos, entre as que desenvolvem os chips poderosos de processamento, principalmente porque os investimentos para criar empresas desse tipo são imensos e porque existe uma carência de profissionais com formação especializada no país. Há uma dificuldade adicional: treinar modelos e algoritmos com dados e casos reais, pois não os temos em quantidade suficiente e não temos profissionais experientes. Os dados funcionam como um tipo de matéria-prima para a IA, permitindo que os algoritmos aprendam, reconheçam padrões, tomem decisões e façam previsões. Sem dados relevantes e de qualidade, a IA pode enfrentar problemas como os chamados vieses e os ruídos no treinamento. Infelizmente, essa é uma área que não dominamos. Porém, observe que, na área de informática e computação, nunca chegamos a ser um notório fabricante de computadores, mas somos um excelente usuário deles. Não é por outra razão que a nossa automação bancária é uma das mais avançadas do mundo —vide o Pix. A urna eletrônica e a nossa arrecadação de impostos são exemplos para o mundo todo. Assim como somos um usuário muito qualificado da tecnologia da informação, podemos ser da IA. Em relação à possível eliminação de empregos pela IA, ficamos com a tese de Erik Brynjolfsson, que defende que ninguém vai perder o emprego para a IA, mas poderá perdê-lo para outro profissional que saiba usar muito bem a tecnologia. Por isso, não devemos insistir em formar desenvolvedores de modelos ou de algoritmos, mas bons usuários, o que demanda preparar os nossos jovens. (3) Prover infraestrutura para abrigar data centers do mundo inteiro. A IA requer data centers com capacidades enormes que demandam, além de hardware e software, eletricidade, sistemas de comunicação, água e refrigeração. São áreas em que temos vantagens competitivas e, em alguns aspectos, estamos em situação melhor que a maioria dos países, em uma época em que a preocupação com o aquecimento global cresce. Além de já ter um parque significativo de data centers por sediarmos grandes empresas brasileiras e multinacionais, o país pode atrair empresas do mundo inteiro que queiram usar eletricidade de fontes limpas, que temos em abundância. Isso, no entanto, não cai do céu: precisa ser planejado e demanda políticas públicas, incentivos fiscais, legislação e financiamento. O Brasil não conseguiu, nos últimos 250 anos, tirar proveito de nenhuma das cinco ondas tecnológicas anteriores para se transformar em uma potência, mas temos agora uma grande chance com a IA: não apenas sendo um grande usuário dela, mas provendo a infraestrutura baseada em energia limpa de que o mundo vai precisar. Além disso, pela sua independência diplomática, o Brasil pode se tornar protagonista nas discussões sobre a governança da IA.

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