Como Matt Haig abordou o autismo em seus best-sellers antes mesmo de diagn�stico

Como Matt Haig abordou o autismo em seus best-sellers antes mesmo de diagn�stico

Um alienígena disfarçado de humano, um professor de 400 anos que finge ter 40, uma jovem que visita vidas alternativas como se fossem a sua, um fantasma que vê a própria vida em terceira pessoa, uma idosa que se muda para um novo país. Os personagens de Matt Haig costumam ser estranhos ao mundo que os rodeia. Mais do que recurso narrativo, é um reflexo de como o próprio autor entende seu entorno —ele diz que já escrevia sobre autismo e TDAH antes de receber o diagnóstico desses transtornos. "Na ficção você escreve aquilo que não sabe que sabe", ele diz em entrevista à Folha. "Os Humanos" conta a história de um alienígena que é enviado à Terra para eliminar a pesquisa de um matemático e, aos poucos, vai aprendendo a agir como um humano. O personagem não parece diferente, mas isso não o impede de se sentir deslocado no meio das pessoas. É assim que Haig se sente. A obra foi relançada neste ano pela Bertrand Brasil, selo da Record –pelo qual o autor já vendeu mais de 1 milhão de exemplares— e foi logo seguida pelo inédito "O Trem da Meia-Noite". Este último é uma resposta ao maior sucesso de Haig, "A Biblioteca da Meia-Noite", seu livro mais amado e odiado, segundo ele diz. A história sobre uma mulher que tenta suicídio e vai parar em uma biblioteca onde encara seus arrependimentos viajou o mundo, foi traduzido para mais de 40 idiomas e ocupou a lista de best-sellers do jornal The New York Times por mais de 50 semanas. O romance chegou ao Brasil em 2021 —um ano depois do lançamento original— e fez barulho entre leitores brasileiros em 2023, quando o influenciador Felipe Neto fez uma crítica chamando a obra de rasa, de livro de auto-ajuda disfarçado de ficção. Na verdade, era um gênero ainda novo no país: a ficção de cura. Muitos leitores saíram em defesa do livro. Um de seus aspectos mais populares são as frases carregadas de lições de vida. Uma das mais compartilhadas nas redes sociais é: "Você não precisa entender a vida. Precisa apenas vivê-la". É algo que conversa com a própria experiência de Haig. Em "Razões para Continuar Vivo", publicado no Brasil em 2017 pela Intrínseca, o escritor conta de uma depressão que quase o levou a se matar aos 24 anos. Hoje, aos 51, o autor diz escrever porque quer ser útil, inspirador e positivo "enquanto todos estão tentando ser sérios, difíceis e depressivos". Uma das críticas que recebe com frequência é a de que escreve livros infantis para adultos. E afirma que essa é mesmo sua intenção. Ele diz que a repercussão de "A Biblioteca da Meia-Noite", inclusive a negativa, fez dele um escritor melhor, "imune a críticas e elogios". "Eu devo muitos royalties ao Felipe [Neto]", brinca. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias "O Trem da Meia-Noite" surge como uma tentativa de corrigir o livro anterior. O novo livro começa com a morte do protagonista que, no além, embarca em um trem cuja linha atravessa suas memórias. Enquanto em "A Biblioteca da Meia-Noite", a protagonista viaja por diversas vidas alternativas para aceitar a própria, o de "O Trem da Meia-Noite" revê aquilo que viveu a fim de mudar suas escolhas. A mensagem, no entanto, é a mesma: "O que parece ser a melhor vida no papel pode acabar sendo um desastre". Haig traz brevemente ao novo livro a protagonista de "A Biblioteca da Meia-Noite" —um raro agrado aos fãs por um autor que admite ser egoísta. Ele diz que conta as histórias que quer ler e, quando escreve, está falando com a versão mais jovem de si mesmo. Quantos mais fãs conquista, mais Haig se torna fã de outros, sempre buscando incorporá-los em suas obras. A poeta Emily Dickinson, o filósofo Kierkegaard, o filme "A Princesa e o Plebeu" e a música "Bridge Over Troubled Water" são algumas das referências repetidas ao longo de seus livros. Outras coincidências intencionais do universo de Haig são a presença de professores —algo inspirado pela mãe, que sempre trabalhou em escolas— e a prática de música, principalmente de piano. "Um dos meus maiores arrependimentos é ter abandonado as aulas de piano quando era um adolescente inseguro e queria parecer durão", conta o autor, que concede aos seus personagens as segundas chances que a vida não dá.

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