O caso de uma adolescente de 13 anos que morreu durante uma transmissão ao vivo no Discord acende um alerta sobre como pais e responsáveis podem identificar se os filhos estão participando de grupos na internet que estimulam comportamentos de risco. Segundo investigação da polícia, a menina teria sido induzida por um grupo à automutilação. Ela morava em Naviraí, município a 355 quilômetros de Campo Grande (MS). A Polícia Civil do estado cumpriu sete mandados judiciais (seis de busca e apreensão contra adolescentes e um de prisão contra um adulto) em cinco estados e identificou ao menos uma segunda vítima. Depois do episódio, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) determinou a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no país. O termo suicídio não deve ser usado de forma automática em casos de coerção grave, a ponto de apagar a participação de quem ameaçou, coagiu ou conduziu a vítima a uma situação extrema, diz Karen Scavacini, doutora em psicologia e fundadora do Instituto Vita Alere, de prevenção e posvenção do suicídio, em São Paulo (SP). Embora o ato possa ter sido realizado pela própria vítima, um processo causal fortemente determinado por terceiros muda a avaliação clínica, as medidas de proteção e a compreensão do que aconteceu, segundo ela. A classificação jurídica de um caso concreto, pondera, cabe à investigação. Para a psicóloga Juliana Prates, professora da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e doutora em estudos da criança, a diferença muda a forma como pais e responsáveis devem reconhecer sinais de alerta e conduzir o diálogo com os filhos. Queda abrupta de notas, isolamento maior que o esperado na adolescência, perda de interesse em atividades que antes davam prazer e o hábito de esconder a tela ou desligar o computador ao ser interrompido são sinais que merecem atenção, diz Prates. Para ela, o que diferencia esses sinais do comportamento típico da fase é a rapidez da mudança. Scavacini acrescenta um conjunto mais específico associado à coerção: ansiedade ou pânico diante de mensagens, medo de uma pessoa ou grupo determinado, necessidade de responder de imediato a notificações, despertar durante a madrugada para atender alguém, apagar conversas repetidamente, trocar de plataforma com frequência, pedir dinheiro sem justificativa e demonstrar terror com a possibilidade de uma imagem ou vídeo ser divulgado. Não é necessário haver depressão, ansiedade ou histórico de comportamento suicida anterior para que uma situação de coerção grave provoque uma crise aguda, diz Scavacini. Ela alerta para a tendência, depois de uma morte, de buscar retroativamente uma doença mental que explique tudo —o que pode minimizar o peso da violência sofrida. Como iniciar a conversa Um erro comum das famílias, segundo as duas especialistas, é reagir com discurso alarmista ou com acusação. Prates cita a tendência de dizer que, se o filho usar determinada rede, "vai acontecer uma tragédia" —argumento que o adolescente desmente na prática ao ver os colegas usando sem problema. Scavacini alerta contra frases como "eu avisei que isso ia acontecer" ou a proibição imediata do celular, que podem fazer o filho se fechar justamente no momento em que mais precisa falar. "Percebi que alguma coisa está acontecendo e estou preocupado com você. Você não precisa me contar tudo de uma vez, mas, se alguém estiver te ameaçando ou fazendo você sentir medo, eu quero ajudar", sugere Scavacini como forma de iniciar a conversa. Para ela, o próprio caso do Discord pode servir de mote para iniciar o assunto em casa, já que a maioria dos adolescentes provavelmente já ouviu falar dele por algum colega ou pelas redes. O ideal é perguntar primeiro o que o filho já sabe ou ouviu e, só depois, avançar para saber se algo parecido já aconteceu com ele. Um acordo prévio de que pedir segredo é sempre um sinal ruim, e de que os pais vão ajudar antes de punir, tira uma das principais armas de quem coage: convencer a vítima de que contar só vai piorar a situação, dizem as duas psicólogas. Como controlar o uso das redes sociais Sobre restringir o acesso às redes, Prates defende que a resposta não deve ser apenas vigilância técnica: cabe às famílias oferecer alternativas coletivas de lazer e manter diálogo constante sobre o que circula nesses espaços. Scavacini pondera que o controle parental ajuda, sobretudo com crianças menores, mas é "apenas uma camada" de proteção — e que responsabilizar só as famílias é um erro, já que pais não conseguem supervisionar todos os ambientes digitais o tempo todo. Para ela, as plataformas também precisam identificar padrões de aliciamento, ameaça e chantagem, e criar canais de denúncia efetivos. O ECA Digital, sancionado em 2025, responsabiliza plataformas pela prevenção de riscos a menores. Se houver risco imediato à vida, os adultos precisam agir —interrompendo contatos e acionando a rede de proteção—, mas de forma que o adolescente entenda que a medida é contra a violência sofrida, e não contra ele, afirma Scavacini. Veja onde encontrar ajuda CVV (Centro de Valorização da Vida) Presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato pelo site e telefone 188 cvv.org.br Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio Oferece grupos de apoio aos enlutados e a familiares de pessoas com ideação suicida, cartilhas informativas sobre prevenção e posvenção e cursos para profissionais. vitaalere.com.br Abrases (Associação Brasileira dos Sobrevivente Enlutados por Suicídio) Disponibiliza materiais informativos, como cartilhas e ebooks, e indica grupos de apoio em todas as regiões do país. abrases.org.br
Como identificar sinais de que adolescentes sofrem coer��o online e iniciar um di�logo sem intimidar
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