Como funciona a vacina contra o c�ncer que reduz risco de recidiva ou morte por melanoma

Como funciona a vacina contra o c�ncer que reduz risco de recidiva ou morte por melanoma

A vacina de mRNA desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e MSD contra o melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele, utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) para ensinar o sistema imunológico a reconhecer e combater células cancerígenas. Quando combinada com imunoterapia, a vacina reduziu em 42% o risco de recidiva ou morte por melanoma, segundo dados divulgados pelas empresas nesta quinta-feira (22). O objetivo do tratamento experimental é diminuir o risco de retorno da doença ou morte após a cirurgia de retirada do tumor. Chamada intismeran autogene, a vacina é produzida de forma personalizada, a partir das características do tumor de cada paciente. Ela é administrada em combinação com o pembrolizumabe, comercializado como Keytruda, um imunoterápico já utilizado no tratamento do câncer. A combinação intismeran/Keytruda já está sendo testada em outros tipos de câncer, incluindo os de rim, bexiga e pulmão. O melanoma é o tipo mais agressivo de câncer de pele porque apresenta maior risco de provocar metástases, quando as células cancerígenas se espalham para outras partes do corpo, como pulmões, fígado, cérebro e ossos. Quando diagnosticado precocemente, porém, apresenta altas chances de cura. A cirurgia é o principal tratamento nos casos iniciais, quando o câncer ainda está localizado na pele. O procedimento busca retirar completamente o tumor. O imunizante entraria junto com o imunoterápico após a cirurgia, para reduzir as chances de retorno da doença. Os resultados da vacina contra a doença foram obtidos em um estudo de fase 3, com 1.137 pacientes. Os dados foram aceitos para publicação na revista científica New England Journal of Medicine, segundo as farmacêuticas, mas o artigo ainda não foi publicado. Diferentemente das vacinas tradicionais, utilizadas para prevenir doenças infecciosas, a intismeran é uma vacina terapêutica, desenvolvida para estimular o organismo a combater um câncer já diagnosticado. Embora o sistema imunológico seja capaz de identificar e destruir células cancerígenas, alguns tumores conseguem escapar dessa defesa. Isso ocorre porque as células do câncer se originam das próprias células do organismo e podem desenvolver mecanismos que dificultam seu reconhecimento ou impedem que sejam atacadas. Ainda assim, elas não são idênticas às saudáveis. Segundo a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica), as células cancerígenas exibem na superfície pequenos fragmentos de proteínas, chamados neoantígenos, que não aparecem nas células saudáveis. Essas diferenças podem ajudar o sistema imunológico a reconhecer o tumor. Para desenvolver a vacina, os pesquisadores sequenciaram o DNA de uma amostra do tumor retirado na cirurgia e identificaram as mutações que existem só no câncer. Em seguida, selecionaram 34 neoantígenos para compor o imunizante de RNA mensageiro, feito sob medida com informações genéticas de cada paciente.Ao ser aplicada, a vacina leva às células do organismo as instruções para produzir esses neoantígenos. O sistema imunológico passa a reconhecer esses fragmentos e treina os linfócitos T, células de defesa, para identificar e atacar as células do tumor que carregam as mesmas marcas. A tecnologia é semelhante à utilizada em vacinas contra a Covid, como a da própria Moderna. Nelas, o RNA mensageiro carrega a instrução para produzir uma proteína do vírus. No caso do melanoma, a instrução é para produzir fragmentos do próprio tumor. A vacina foi testada em associação ao pembrolizumabe, um imunoterápico utilizado há cerca de dez anos no Brasil e indicado para diferentes tipos de câncer, como os de pulmão, mama, bexiga e melanoma, segundo o oncologista Tiago Kenji, do Hospital Santa Paula, da Rede Américas. O pembrolizumabe atua bloqueando a proteína PD-1, presente na superfície dos linfócitos T, células responsáveis por combater ameaças ao organismo. Essa proteína ajuda a controlar a atividade dessas células de defesa, impedindo que ataquem indiscriminadamente os tecidos saudáveis. Kenji explica que alguns tumores conseguem utilizar esse mecanismo para impedir que os linfócitos T ataquem as células cancerígenas. O pembrolizumabe bloqueia essa ação, permitindo que o sistema imunológico combata o câncer com maior eficácia.Por isso as duas estratégias se complementam. A vacina mostra aos linfócitos T qual alvo atacar, e o imunoterápico impede que o tumor desligue essa resposta. A combinação já está sendo investigada em estudos clínicos para outros tumores, incluindo os de pulmão, rim e bexiga. Ainda será necessário, porém, demonstrar se a tecnologia também oferece benefícios nessas doenças. Quando a vacina poderá chegar ao mercado? Apesar dos resultados positivos, a intismeran autogene ainda não foi aprovada para uso clínico e permanece restrita a pesquisas. Kenji avalia que os dados de fase 3 representam um passo importante para a chegada da vacina ao mercado. As empresas estão preparando um pedido de aprovação nos Estados Unidos. À Reuters, o presidente-executivo da Moderna, Stéphane Bancel, afirmou que a expectativa é lançar a vacina em 2027. No Brasil, ainda não há previsão de quando o tratamento poderá estar disponível. Para ser comercializada no país, a vacina precisará receber aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

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