Como deve ser a primeira consulta de crian�as e adolescentes no ginecologista

Como deve ser a primeira consulta de crian�as e adolescentes no ginecologista

"É só uma dorzinha, vocês mulheres são muito dramáticas." "Quando engravidar, passa." "Um chute nas bolas dói mais." Estas são frases sobre cólica menstrual que meninas e adolescentes dizem ouvir com frequência na escola, em casa e até em consultas médicas. Os relatos aparecem no Almanaque de Saúde Menstrual – Livres Para Menstruar, lançado na quinta (29) pela Girl Up Brasil, movimento que reúne grupos de meninas pelo país. O material se baseia em conversas com 200 meninas para propor uma quebra no silêncio e nos tabus que envolvem a menstruação e a dor pélvica. Diferentes estudos apontam que o desconhecimento do próprio ciclo menstrual e a normalização da dor levam meninas a esperarem anos até o diagnóstico de doenças que têm como sintomas as dores pélvicas, a exemplo da endometriose. Pesquisa do Instituto Alana com o Equidade.info apontou que 4 em cada 10 meninas faltam à aula ao menos uma vez por mês por causa dos sintomas. Outro estudo, da Vital Strategies Brasil com a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), mostrou que só 0,5% dos registros de dor menstrual no SUS do Recife foram associados a um código oficial de doença. Em maio, parte das ativistas foi a Brasília para uma oficina do Alana com ginecologistas. As adolescentes contaram o que vivem nos consultórios ginecológicos e disseram como gostariam de ser atendidas. "O que ficou claro é que elas têm, junto à trajetória da dor, uma trajetória de falta de escuta", diz Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do instituto. A conversa vai render um guia para ginecologistas, com lançamento previsto para o início do próximo ano. A ideia não é criticar os profissionais, afirma Sofia, mas ajudá-los a ouvir melhor para que o diagnóstico de doenças como endometriose, que leva em média de 10 a 12 anos, chegue mais cedo. No Dia do Ginecologista, celebrado nesta sexta (30), duas médicas que participaram da oficina descrevem como seria uma primeira consulta ideal. Escuta sem pressa O primeiro passo é deixar a adolescente entrar sozinha no consultório, caso prefira, e falar sem ser interrompida, afirma a ginecologista Brunely Galvão. O médico só deve conduzir a conversa se ela não conseguir organizar as queixas, o que, segundo Brunely, acontece cada vez menos. A ginecologista Joyce Martins fala em escuta qualificada e receptiva. Com uma menina de 10 anos, diz, é preciso saber onde ela estuda, quem é a melhor amiga, se gosta do grupo sul-coreano BTS. Sem esse esforço para entrar no mundo da paciente, ela não se abre. Isso é ainda mais importante ao considerar os diferentes recortes de raça e classe social, diz Joyce. Meninas indígenas e quilombolas, por exemplo, podem relatar outra forma de lidar com menstruação e cólicas, à qual os ginecologistas precisam se adaptar. Respeito e autonomia As meninas que estiveram na oficina deixaram claro que têm opinião sobre o próprio cuidado, afirma Brunely. Isso exige não tutelar a adolescente nem esperar que o responsável fale por ela. Significa também não infantilizar o discurso. O almanaque reforça esses pontos. A partir dos 12 anos, a adolescente tem o direito, no SUS, de ser atendida sozinha ou com um acompanhante de confiança, que não precisa ser pai ou mãe. O que é dito no consultório é sigiloso, salvo risco grave à vida. Brunely defende que o consultório tenha um modelo pélvico para explicar anatomia e exemplos de produtos de higiene menstrual, como calcinha, coletor, disco e absorvente interno. Informação nunca é demais A primeira consulta ginecológica pode acontecer antes ou depois da menarca, que ocorre cada vez mais cedo. Por isso, afirma Joyce, a consulta é uma chance de ensinar às meninas como funciona o próprio corpo e como acompanhar a saúde menstrual. Os ginecologistas não devem se limitar a checar se está tudo bem. Ela diz explicar sobre o uso do absorvente, a cor e a origem do sangue e, às vezes, usa um espelho para apresentar a vulva e orientar a higiene. A linguagem precisa ser de fácil entendimento, mas uma criança de 8 a 10 anos vai entender do seu próprio jeito. O tema só parece complexo por causa do tabu, ela afirma. A menstruação também não deve ser tratada como o fim da infância, segundo Joyce, e expressões como "virou mocinha" podem fazer a menina achar que não pode mais brincar. Cabe ao médico mostrar que ela pode, sim, correr, praticar esportes e usar uma calcinha menstrual para ter mais segurança, caso tenha acesso. Isso reduz ansiedade, medo e vergonha, diz Joyce. A consulta também deve abordar consentimento, pois a saúde menstrual está ligada à sexual. Nenhuma dor é normal Um dos pontos mais citados pelas meninas é que muitos profissionais passam por cima das queixas de dor, segundo Brunely. A cólica é tratada como algo natural da mulher, o que dificulta separar o esperado de sintomas de condições como a endometriose. Quem define se a dor é incapacitante é quem a sente, afirma a médica. O sangramento, por sua vez, tem parâmetros mais objetivos, como o número de absorventes ou coletores trocados por dia. É motivo de ir ao ginecologista a dor que impede de brincar ou de ir à escola, o sangramento acima do esperado e o que dura vários dias e é acompanhado de fraqueza, sono em excesso ou mudanças intensas no hábito intestinal, diz Brunely. O almanaque vai na mesma linha ao pedir que o ciclo menstrual seja tratado como sinal vital, com perguntas em todas as consultas, como se faz com a pressão arterial. Também critica a prescrição de anticoncepcionais apenas para mascarar sintomas, sem investigar as causas. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres Quem tem a responsabilidade O documento orienta adolescentes a levarem anotações para a consulta, com base no chamado roteiro Menses —a sigla reúne a idade da primeira menstruação, a frequência dos ciclos, a duração do sangramento, a quantidade de absorventes ou coletores trocados por dia, o impacto na rotina e a data do início da última menstruação. O foco da conversa, contudo, não deve recair sobre crianças e adolescentes, diz Joyce. A responsabilidade é de quem escuta, o que inclui combater o racismo que também atravessa o atendimento em saúde. O cuidado precisa vir do sistema de saúde, da família, da escola e dos profissionais, acrescenta a médica. "São as meninas que precisam ser cuidadas e assistidas. A gente precisa cuidar dessa geração."

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